domingo, 8 de março de 2009

"Elas", (Revolução)


(A primeira rosa recebida pela Letícia, foi oferecida pelo pai)

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.

Dezembro de 1975

in
CRAVO, MARIA VELHO DA COSTA, MORAES EDITORES, 1976

segunda-feira, 2 de março de 2009

Ladrão de palavras

(Imagem aqui)

Imagine uma pessoa da sua confiança, de quem você gosta de facto, a quem trata como amigo, imagine que esse alguém o rouba. Imagine, que tendo em conta várias circunstâncias, você decide ajudar essa pessoa e dá-lhe uma nova oportunidade.

Agora, imagine que essa pessoa o rouba novamente.
Fica chocado? Perplexo? Eu não. A mim surpreendem-me pessoas capazes de superar o erro, que aprendem com os erros que cometem. Sinto admiração por essa classe de pessoas, pois são raras.
O comum é pessoas apoderarem-se do que não lhes pertence; e ladrões não são apenas aqueles que roubam dinheiro, objectos. Embora sejam esses os estigmatizados, eu prefiro-os àqueles que aparentemente dignos, entram, por exemplo, sub-repticiamente num blogue e vão buscar um post de 2006, trocam “banana” por “morango”, "Inverno" por "Primavera" e voilá! O texto muda de autoria. Há muitas formas de usurpar o que não nos pertence e roubar possui um sentido muito mais lato do que aquele que estreitamente lhe atribuimos.
Prefiro um encapuçado, são mais honestos, não enganam quem os vê.

Tenha uma óptima semana!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Elogio ao trabalho manual


Na semana passada dediquei-me às artes manuais; comprei uma cadeira em faia, para a escrivaninha da Letícia. Lixei-a, limpei-a, pintei-a com uma pátina branca e envernizei-a. Levei o assento ao estofador que a forrou com um resto de tecido do edredão. Enquanto trabalhava na cadeira ia pensando…

Quando há cerca de 14 anos fomos à Alemanha, pela 1ª vez, eu e o meu marido ficamos perplexos com a casa que os nossos amigos tinham construído. Sim, eles próprios, ele engenheiro mecânico, ela secretária. Com ajuda da família e amigos eles tinham construído a própria casa, rés-do-chão, 1º andar e um estúdio no sótão, durante fins-de-semana e férias. E mais surpreendente: lá isso é muito comum, porque a mão-de-obra é extremamente cara.

Quando pela 1ª vez o meu marido decidiu pintar a nossa casa comprou as tintas aqui numa loja perto e em simultâneo pediu algumas dicas à senhora que o atendeu; era óbvio que ele não entendia muito da arte e então ela, espontaneamente, sugeriu, apontando um homem debruçado ao balcão, um pintor. O meu marido agradeceu mas afirmou que ele mesmo pintaria, ao que o dito pintor concluiu, um pouco despeitado:
- Agora até os doutores* pintam!

Em Portugal os engenheiros formam-se a pensar que vão trabalhar em escritórios e que apenas os subalternos vão sujar as mãos. Pessoas com formação superior não pegam em trinchas, não por uma questão económica, apenas por status. Pois, eu penso que é uma pena; todo o tipo de trabalho honesto é dignificante, todo é necessário a todos e ninguém é mais do que o outro, só porque não suja as mãos.
Mas como é raro ver mãos encardidas, calejadas pelo trabalho! Vi recentemente e fiquei parada a apreciar as mãos daquele homem, ainda jovem, e admirei-o. Intimamente desejei-lhe uma vida boa, que nada lhe faltasse, nem aos seus.

No final, admirando a cadeira senti-me satisfeita e orgulhosa pela transformação, bem sucedida, se dever ao meu trabalho.

Tenha uma óptima semana!

Nota: doutores* por extenso somente para melhor expressar a oralidade, o correcto seria Dr. .

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Compre o que é nosso

Em Janeiro uma média de 120 pessoas, por dia, perderam o emprego em Portugal. Por isso, sempre que posso, e se ficar atenta posso quase sempre, compro o que é feito em Portugal. Não é uma questão de xenofobia económica, somente porque ao fazê-lo estou a defender o emprego dos meus concidadãos. Como tudo funciona em círculo, estou ao fim e ao cabo e defender-me também. Bem sei que cada vez é mais difícil encontrar produtos portugueses, mas eles existem. E nem sequer são sempre os mais caros, como costuma dizer-se.
Na semana passada fui à feira semanal e comprei turcos, toalha de mesa, roupa interior para as crianças e um tecido para fazer almofadas, tudo feito em Portugal, numa excelente relação qualidade-preço.
Comprei nos saldos algumas malhas e jeans para as crianças, bem confeccionados, muito giros a excelentes preços. Não desdenhe as marcas desconhecidas pois também estas são capazes de apresentar colecções lindas, de óptima qualidade, contudo, se preferir temos também marcas conceituadas, tal como a Tiffosi, Girândola, Lanidor, Gente Miúda, etc.
Ao comprar Gap, Gant, Timberland, Ralph Lauren,etc, está sempre a comprar Made in China, Vietnam, Korea, etc. Não se iluda, são apenas logos! E embora eu não diga nunca, também quero dizer "nem sempre"!
Portugal precisa de produzir e os portugueses precisam de comprar o que é cá produzido!
A AEP alertou para a importância de comprar produtos nacionais e desenvolveu o programa “compro o que é nosso” na expectativa de sensibilizar o cidadão. As empresas que aderiram identificam-se com o logótipo na etiqueta do artigo. Caso este não exista, pode sempre procurar pelo “made in Portugal”.Os saldos estão a terminar, no entanto, vem aí a nova colecção Primavera-Verão, portanto, não esqueça: compre o que é nosso!


Tenha uma excelente semana!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Brincadeiras e receitas


Parte III do tema: dívidas virtuais

Recebi da Bianca um meme de dia das crianças (meu Deus, há quanto tempo, mas como eu penso que dia das crianças são todos os dias…) vou finalmente responder, terminando assim a minha série de dívidas virtuais.

A brincadeira é a seguinte:


Álbum de figurinha - Colocar o selinho na postagem.

Hora do Recreio - Conte qual era a melhor brincadeira de criança da sua infância.

Brincando de Cozinha - Escreva a receita que fazia sucesso na sua infância.

Passa-passa 3 vezes - Escolha 3 blogs e desafie para brincar.

As minhas respostas:

Hora do Recreio: Eu gostava de brincar a tudo! Era uma variedade enorme, aliás pensando nisso, eu brincava muito pouco com bonecas e brinquedos, apensar de ter imensos. Acho que eu preferia brincar com os meus amigos a saltar ao elástico, às escondidas, à apanhada e um jogo muito engraçado em que duas equipas davam pistas uma à outra de animais e a outra equipa tinha de adivinhar; caso não adivinhasse tinha que fugir até uma barreira e os elementos que fossem apanhados na fuga eram reintegrados na equipa perseguidora. Eu era craque nesse jogo, pois tinha uma enciclopédia de animais e todos os dias eu pesquisava alguns desconhecidos, de modo que a outra equipa não conseguia adivinhar, rssss…

Brincando de Cozinha: Sempre tive tendência para doces e desde muito cedo comecei a fazer as sobremesas em casa dos meus pais. Lembro-me particularmente de uma receita de bolachas de canela, que adorava moldar em formas variadas, trancinhas, corações, laços, etc; uma delícia! Como essa receita desapareceu eu seleccionei outra que faço com os pequenos; é muito fácil, dá uma tarde bem passada, pois eles adoram recortar e decorar as bolachinhas. E depois devorá-las! É que realmente são as melhores bolachas do mundo, depois de começar a comer é muito difícil parar. Só mesmo quando acabam, kkkkkk…
Deixo aqui a receita, quem sabe alguém se inspira e faz uma lata de bolachinhas para acompanhar um chá ou o café.

Bolachas Joana d’Arc
250 gr de farinha
125 açúcar
125 gr manteiga amolecida
2 Ovos
Misturar a farinha com o açúcar e a manteiga e incorporar os ovos inteiros. Misturar bem, estender a massa ( se a massa colar, ir adicionando farinha) com o rolo e cortar com os moldes. Pincelar com gema de ovo e levar ao forno quente até ficarem lourinhas.

Passa-passa 3 vezes: Comigo os memes chegam todos ao fim, rsssss…Lamento, não vou passar, mas enfim, já disse e repito fique à vontade de continuar o meme.

Bianca, missão cumprida! Você já nem se lembrava…

Tenha um óptimo fim-de-semana!

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Desafio


Parte II do tema: dívidas virtuais

A Hazel nomeou-me (há montes de tempo, tenho que dizê-lo!) para responder ao seguinte desafio:
"Mostrar mediante uma imagem (pesquisada ou elaborada por nós) como consideramos o verdadeiro sentido ou origem dos nossos filhos. Devemos expor a nossa verdade e não aquela que aprendemos com os nossos pais, na escola, na vida, etc.."

Já antes respondi a um desafio muito semelhante, aqui. E a própria Hazel escreveu um post que eu poderia subscrever, no entanto, gostaria de acrescentar um novo pensamento, que se tem revelado numa atitude.

O verdadeiro sentido na origem dos meus filhos tem-me conduzido a um conceito mais amplo do amor. Actualmente sou incapaz de olhar uma criança com indiferença; em cada uma revejo os meus filhos. Assim, ver crianças sem agasalho, à chuva, no portão da escola sozinhas, sem lanche, etc, faz-me intervir. Falo com elas, preocupo-me e tento ajudar.
As minhas preocupações com o meio ambiente também se devem, em grande parte, aos meus filhos e à geração deles. Amo a natureza e tento preservar, o melhor possível o planeta, também por eles, para que possam ter uma vida saudável e com qualidade futuramente.

Amar os meus filhos tornou-me uma cidadã mais interessada e interventiva e, em última instância, uma mãe perante crianças que nem são realmente minhas.

De novo não repassarei este desafio, todavia fique à vontade para continuá-lo ;)

Tenha um bom dia!