segunda-feira, 10 de novembro de 2014

"Amote"

Julgava eu que aquele " I love you" corrido, dos americanos, era bonito. Porque declaravam o amor informalmente, sem dia nem hora. Porque nós não o fazemos senão muito raramente, e grande parte das pessoas nem sequer o pronuncia, nunca.

Agora, que o vejo escarrapachado em todas as "conversas" de adolescentes no FB, e noutras redes sociais, acho-o supérfluo e falso. Dizem "amote" com a displicência de quem diz "Olá".

Falso no sentimento, falso na abundância, e falso na grafia.
Afinal, prefiro-o raro e mais resguardado.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

"A perfect body"

Via
Esta questão do "corpo" parece ter uma mola que faz reagir as pessoas de forma exagerada e até violenta. Que todos reajam, parece-me bem, porém faze-lo de forma ofensiva para quem tenha  opinião contrária, ou para os corpos em questão, é que me parece muito errado.

A discussão é interessante e muito necessária, mas não nestes moldes de ataque. Há poucas semanas o alvo foi a actriz Jéssica Athayde, que desfilou excepcionalmente para uma marca de biquínis. Na minha opinião, o corpo da actriz é lindo, porém há quem pense o contrário e o proclame aos quatro ventos, condenando a actriz por se exibir num desfile de moda.

A última achega vem a propósito da campanha "Victoria's Secret", cujas modelos são acusadas de extrema magreza. Ainda assim há quem as defenda, usando o argumento do modelo saudável, invocando uma alimentação correcta e exercício físico.

Na realidade, não sabemos se aqueles corpos foram esculpidos graças à genética, ou resultado de esforço e contenção. Parece-me, no entanto, bastante perigoso que estando as modelos na mira de tantas jovens que ambicionam igualá-las e até tomar-lhes o lugar, este físico seja considerado "o corpo perfeito". Sei que o nome da campanha se refere à linha que promove, mas não me escapa o trocadilho entre lingerie/corpo.

Considerando o número crescente de jovens com problemas de anorexia e bulimia, campanhas que mexem com a mente de pessoas, ainda em formação de personalidade, tornam-se preocupantes.

Portanto, modelos como a Jessica Athayde a desfilar agradam-me imensamente. São corpos muito mais aproximados aos corpos comuns. E são lindos.

A campanha da marca americana seria irrepreensível, se enquadrasse no mote de "Perfect body" uma foto que incluísse corpos diferentes, e de diferentes tamanhos. Porque o corpo perfeito contempla diversidade. Essa é a noção mais saudável a reter e promover.


Via

O facto é que as críticas não foram em vão, e os publicitários da Victoria's Secret acabaram por tomar essa linha, ao mudar o slogan da campanha para: " a body for every body".

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Dependências


Via TheTelegraph
Uma reportagem na televisão acompanhou a família de uma jovem que se assumia inseparável do seu Iphone, chamando-lhe inclusivamente - meu melhor amigo. A mãe assumiu que lá em casa cada membro da família estaria normalmente numa divisão diferente, cada um com o seu aparelho, e que através dele comunicavam, se necessário. Assumiu também que a comunicação entre a família era praticamente inexistente.

Entretanto, li um artigo de uma mãe no qual admitia que após ter o telemóvel avariado se apercebeu (depois de 2-3 dias a ressacar), como estava dependente dele, interrompendo qualquer actividade que estivesse a fazer com a filha, para responder às solicitações que o aparelho emitia.

Este estudo do ISPA  fornece agora dados muito concretos e preocupantes - 73% dos jovens portugueses apresentam sintomas de viciação na internet, sendo  13% um caso severo, revelando sinais como dores de cabeça, irritabilidade e por vezes agressividade quando frustrados; por sinal, cerca de 52% dos jovens tem noção e assume essa dependência.

Enquanto pais e educadores temos todos a noção da dependência mas... estaremos realmente preocupados e empenhados numa viragem?
Muitos pais e educadores estão igualmente viciados nas novas tecnologias, postando frequentemente no FB fotos e factos, pensamentos e ilustrações, tão desejosos de likes, como os filhos, e aspirando igualmente a números impressionantes de "amigos".

Em qualquer local se encontram grupos, de família ou amigos, cada um com o seu aparelho, teclando muito mais do que conversando. Seja num restaurante, num jardim, ou caminhando na rua.
E a situação parece ser conveniente para todos. E por que não seria, se em casa se passa o mesmo?

Há pelo menos algumas horas do dia em que as famílias se encontram, que normalmente coincidem com as refeições, sendo que esse tempo conjunto deveria ser assumido como exclusivo para a família, e aproveitado para comunicar.
Desligar todos os aparelhos e desligarmo-nos deles. Desfrutar desse par de horas para nos inteirarmos de como todos passaram o dia, do que aconteceu, para desabafar, pedir conselhos e dar orientações, ou simplesmente assumir um estado de espírito. É assim que se constroem os laços entre as pessoas, através da comunicação directa que estabelecemos com amigos e família.

Não acontecendo isto na vida real, acaba por ser escancarado nos ecrãs de desconhecidos - ah, perdão, "de amigos".

Mais uma vez, e como se costuma dizer: "o exemplo vem de cima". É necessário ter moral para exigir determinados comportamentos dos filhos. Se a prática for comum é mais fácil aceitá-la, ainda que saibamos que fácil nunca será, porque a sociedade está empenhada no contrário;  senão, vejamos mais esta facilidade, uma via reservada exclusivamente a utilizadores de telemóveis. Começou na China, mas quem não acredita que depressa será replicada por todo o lado?

Esta é, de facto, uma dependência a que o Mundo abre alas; a luta para reverter a situação está a desfavor dos pais e educadores, mas creio que se formos consistentes e igualmente perseverantes, poderemos ensinar, pelo menos, que a relação homem-máquina pode ser mais equilibrada. E mais saudável.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Escrever e receber uma carta


Envelopes ilustrados por mim e pela Letícia
Quantas histórias não passaram pelas Caixas de Correio ao longo dos tempos? Histórias de amor e amizade, de saudades, de problemas, de tragédias e desabafos, de segredos, mas também histórias prosaicas, cuja intenção não passava de um "estou a pensar em ti, com estas letras tão banais".

O gesto de quem abria as Caixas de Correio era inspirado por secretas ou explicitas emoções que se frustravam ou não, consoante o seu conteúdo.

Porém, as novas tecnologias retiraram-lhes o protagonismo, e as Caixas de Correio passaram a receber apenas contas e publicidade, tornando-se receptáculos de indiferença e apreensão.
Actualmente, a maioria das empresas envia as facturas por email e grande parte das Caixas de Correio estão decoradas com autocolantes amarelos que avisam não aceitar publicidade.

Pobres e obsoletas Caixas de correio. Estarão destinadas a ser removidas de portas de casa, de portões e outros locais que as sustentem?
Não em minha casa. A nossa Caixa de Correio continua activa, recebendo notícias de outros países, de pessoas distantes que partilham comigo a paixão por um envelope fechado, que traz emoções e pensamentos partilhados. E que eu devolvo, retribuindo na mesma medida. Há ainda muitas coisas em mim que remontam à criança que fui, esta é uma delas e gosto de a cultivar.

Se anseia dar nova vida à sua Caixa de Correio, mas não sabe como fazê-lo, sugiro que espreite no Postcrossing.


sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Friands de Framboesa


É sempre uma alegria encontrar alguma receita na qual possa utilizar claras. Tenho-as frequentemente congeladas, além de ser  um óptimo recurso na falta de ovos. Portanto, foi o que me interessou na receita de Friands. Por fim, os Friands revelaram-se deliciosos e desapareceram num ápice, ainda quentes.
A amêndoa em pó tornou-se assim indispensável, na minha despensa.



Friands de Framboesa*

Ingredientes: 

125g de manteiga
1 chávena de amêndoa ralada
1 2/3 chávena de açúcar em pó peneirado
3/4 chávena de farinha de trigo, peneirada
1/2 colher de chá de fermento em pó
5 claras de ovo
1/3 chávena de framboesas congeladas
manteiga derretida para untar
farinha ou pão ralado para as formas

Como fazer: 
 Preaqueça o forno a 180C (350F). Coloque a manteiga  numa panela em lume baixo. Deixe derreter. Retire do fogo e reserve.
Misture a farinha, a amêndoa ralada, o açúcar em pó, e o fermento  num recipiente. Envolva tudo. Adicione as claras em neve e misture delicadamente com uma colher de pau para misturar. Adicione a manteiga e envolva bem.

Unte as formas e polvilhe com farinha ou pão ralado. Coloque um colher
de sopa ou duas de mistura em cada forma, e polvilhe com framboesas congeladas.

Asse em forno pré-aquecido, aproximadamente 15 a 20 minutos até ficar cozido, dourado e ainda húmido no centro.
Desenforme, e deixe arrefecer na rede. Polvilhe com açúcar em pó para servir. 
Dá 10.

* Dica da receita do Saídos da Concha, original do Cook Republic.  

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Tão natural como as gargalhadas...

Tão natural como a vida, é a morte. Como o riso é o choro, como a conversa é o silêncio, como a saúde é a doença, a velhice é a juventude. E por aí fora.
Fazem parte da mesma moeda, mas são tabu na nossa sociedade. Reprime-se o que constrange, evitando enfrentar o que nos lembra o lado menos bom da vida.

E por isso, vamos dizendo às crianças, desde pequeninas: - Não chores, olha que chorona!
E ainda pior, aos rapazes: - Não chores, os meninos não choram!

Convencem-nos de que ser forte é não chorar, aguentar as situações que magoam estoicamente, fazendo semblante de indiferença.

Cultivamos a felicidade, porém a vida não é feita apenas de alegrias. Não acredito em nada disto. Ser forte é enfrentar a vida com as suas coisas boas e más, chorar quando houver razão e rir quando vier ao caso. Porque chorar não diminiu ninguém, é apenas a expressão da tristeza, assim como as gargalhadas são da alegria.

Penso que devemos educar os nossos filhos com respeito, e nessa linha está contido o respeito pelas suas emoções. Ensiná-los a lidar com os sentimentos, analisando e orientando. Mas nunca reprimindo, sob pena de criarmos adultos empedernidos que se magoam sobretudo a eles mesmos.

Texto relacionado: Apologia ao choro.