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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Agora que o Verão se acaba...


Elegia a uma pequena borboleta

Como chegavas do casulo,
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anémona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que reflectissem
— voo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!


 Cecília Meireles. “Retrato natural”. In: Obra poética. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Mulher - Amor e Respeito

Escrevi este poema no ano passado, para participar num projecto artístico que esteve patente em Faro, a convite de uma amiga querida. A Letícia pediu-mo ontem, para ler hoje a propósito do dia da Mulher, e lembrei-me de o publicar aqui também. 
Não direi parabéns às mulheres (nem nos venham com flores!), hoje como todos os dias, é dia de agir, como fazem as espanholas com esta greve, e as islandesas fizeram no passado, mudando a sua sociedade. Nós queremos amor, mas também queremos respeito!


  Mulher
Disseram-te que nasceras da sua costela e acreditas-te.
Disseram-te que por isso lhe devias a vida. E escravizaram-te. 
Disseram-te que inventaste o desejo e assim o perderas. Que a culpa é tua, dos males da humanidade inteira.
Esqueceste que dás vida e alimento. Que TU és A Humanidade.
Mas agora te levantas, mais forte e digna, acima das acusações rasteiras que te tolheram. Resgatada pela tua própria mão.  

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Por Vezes a Vida é Poesia

Como qualquer pessoa que gosta de escrever, e não passa sem escrever, houve uma época em que também eu ensaiei algumas linhas na poesia; era adolescente, e rapidamente compreendi que aquilo não era para mim. Um outro patamar, mais selecto, mais secreto, onde apenas um punhado de escolhidos poderia entrar.
Durante muito tempo fiquei até com uma certa raiva da poesia, por não conseguir escrevê-la, recusava ler fosse o que fosse, e de quem fosse. Mas o mundo gira. Fui lendo alguns poemas, e apreciando um ou outro. Fui lendo mais, e apreciando mais. E continuava no meu canto: já me bastava ler, escrever não era para mim.

No Verão passado, a sombra de um desgosto começou a pairar na minha vida, e como acontece frequentemente em momentos de crise, fiquei mais reflexiva, introspectiva; querendo o de todos, desvendar os segredos dos deuses e dos homens, na tentativa de encontrar respostas que me apaziguassem. E espontaneamente, os meus pensamentos foram ganhando a forma de textos, alguns, na forma poética. Palavras geradas por pensamentos voluntariosos e sofridos.

Francamente, não gostei do processo daquela escrita; descobri que a poesia se tornava obsessão, e me fazia prisioneira da palavra. No entanto, depois que ganhava forma o alívio sentido era pacificador.
Por coincidência nessa ocasião, recebi a proposta para participar  de uma colectânea de poesia lusófona, em edição de autor. Parece-me pretensioso, e até contraditório, chamar antologia a uma edição de autores, no entanto foi assim designada. Enfim, há poemas para todos os gostos. Os meus ficaram aí registados para não caírem no esquecimento.

Este foi um dos poemas que publiquei :


Folha que cai

   Há, na folha que cai, a pacífica nostalgia do tempo que acaba.
   Aceitação do inevitável, sem lamento e incompreensão
   Ao nosso olhar interrogativo.
   Soberana conhecedora dos segredos do tempo
   Sabe que nasce, que vive, que morre.
   E que tudo se repete infindavelmente. 


in Enigmas
Antologia de Poesia e Texto Poético da Lusofonia
Sinapis Editores
À venda na livraria Elêtheia, Rua de O Século, nr 13, Lisboa