Com os meus filhos agora a entrar no mercado de trabalho acompanho as dificuldades que enfrentam, e compreendo melhor aqueles que optam por trabalhar no estrangeiro, ou preferem trabalhar para empresas estrangeiras. A ética é tão discrepante!
O patrão português tem , no geral, uma mentalidade medíocre relativamente aos seus funcionários, está certo, o mérito de ter fundado uma empresa é sua, de a gerir para o sucesso idem, porém esquece totalmente o facto de que não o fez nem faz sozinho, e que os seus colaboradores foram, e são, fundamentais nesse processo.
O patrão típico português reserva-se ao direito de beneficiar extraordinariamente do seu estatuto, relativamente aos restantes trabalhadores, porque precisamente não os vê como "colaboradores", mas como "empregados". E isso constata-se pelo estilo de vida que exibem, e suas famílias, comparativamente com quem trabalha para eles. Daí que aqueles que têm mais capacidades, que sabem o que valem procurem trabalhos onde sejam valorizados. Portanto, a médio e longo prazo estes empresários acabam por ficar com os menos competentes ou com quem não tem alternativa para mudar para melhor, mas todos descontentes. Ora, está provado que este estado de espírito não favorece o rendimento nem qualidade de trabalho, porém, desde que as "coisas rolem" os empresários nem se apercebem, nem se importam.
A situação tem sido esta de uma forma tacita, porém na última entrevista a que o meu filho foi, o entrevistador ( que era o patrão) perguntou-lhe directamente se ele aceitava fazer horas extra sem ser pago, ao que ele respondeu que " em casos extremos, sim", mas o entrevistador insistiu, é que "na empresa isso acontece muitas vezes, dias e semanas seguidas", e perante a reserva do Duarte, o sentimento de desagrado no rosto daquela pessoa era visível.
Quando o meu filho saiu da empresa já sabia que não seria chamado; não tinha colaborado no requisito de trabalhar gratuitamente. Ficamos todos bastante chocados, agora já se pergunta de caras se o empregado aceita trabalhar gratuitamente? Que é isto, uma nova forma de escravatura?!
É moralmente errado mas alguém, no desespero de encontrar trabalho, vai aceitar ser explorado. E eu não condeno esse alguém, condeno o explorador.
Eu sou filha de um empresário, porém aquilo a que assisti, durante uma altura em que a fábrica da família esteve à beira da falência, foi bem diferente desta mentalidade, o meu pai pagava a todos os seus trabalhadores primeiro, sendo ele o último a receber o salário, que vinha frequentemente incompleto, e por partes. Saber que o meu pai foi este tipo de patrão foi para mim a verdadeira herança, e meu orgulho. Eu sei que existem empresas portuguesas onde as práticas são pensadas no bem-estar do trabalhador e seu contentamento, porém tal como o meu pai foi, pertencem à excepção.
É lamentável que estejamos a deixar partir os nossos melhores, é deles que o país precisa para evoluir e enriquecer, mas enquanto a mentalidade individual não mudar a situação no mercado de trabalho permanecerá tão indesejável como se vê.