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Foi daqueles clássicos que li na adolescência, e creio que se não fosse esta última polémica, a propósito do filme, em que nas redes sociais muitos se indignaram por Heathcliff ser representado por um actor branco, e pela adaptação do próprio filme, não teria repescado este livro. Não me recordava nada do Heathcliff ser negro, e recordava a história como um amor romântico infeliz. Após esta leitura concluí que devo reler, pelo menos alguns, clássicos lidos quando era jovem. Não acho que seja negro, simplesmente não era o típico inglês e o seu tom de pele era realmente mais escuro, talvez mestiço, de indiano, cigano.
Entretanto, vi alguns minutos do último filme, por curiosidade apenas, e não consegui prosseguir, a liberdade da realizadora aniquilou a obra, àquilo já não se poderá chamar adaptação, é antes um atentado à obra original e desrespeito para com Emily Brontë. Como diz uma cliente minha americana: Eu voto com o meu dinheiro. Não pago estes disparates "modernos".
Emily Brontë é a mais nova das famosas irmãs Brontë, o pai era vigário da igreja de Inglaterra e a mãe morreu precocemente, sendo substituída por uma tia austera; o pai envia as três filhas mais velhas para um colégio interno, onde passaram muito mal, e posteriormente duas delas morreram, de regresso a casa. Chegou a ser professora, mas teve que desistir devido à sua saúde frágil, era também de natureza extremamente reservada e vivia muito bem afastada do convívio social, passeando solitariamente pelas charnecas. Encorajada por Charlotte, que disse às irmãs que todas deveriam escrever um livro, escreveu O Monte dos Vendavais em 1846, sob o pseudónimo de Curr, era comum as mulheres usarem nomes masculinos para assinarem as suas obras. O livro foi bem recebido embora sem o reconhecimento de obra-prima que lhe é presentemente atribuído.
Emily morreu aos 30 anos, "apagou-se", poucos meses após o óbito do único irmão, Branwell, que tinha caído no vício da bebida e se autossabotado como pintor, antes considerado promissor. A única obra de Emily Brontë foi esta.
A história tem lugar na casa de família dos Earnshaws, uma propriedade chamada Monte dos Vendavais, no Yorkshire em 1801. O Senhor Lookwood que tinha arrendado a propriedade de Thrushcross dirige-se a casa do seu senhorio, a fim de o conhecer, no Monte dos Vendavais, e aí se depara com um curioso grupo: o próprio senhorio, Heathcliff, Cathy, Joseph e Areton, que o recebem de forma abertamente hostil . Apesar de não se sentir bem-vindo a curiosidade sobre o grupo leva a melhor e ele teima em regressar àquela casa tão lúgubre e ameaçadora, de onde já sai resolvido a não regressar, por se sentir indesculpavelmente insultado. Porém, o mau tempo faz com que adoeça, e nesse tempo de convalescença, Nelly, a sua governanta, que fazia parte da casa, satisfaz-lhe a curiosidade contando toda a fatídica história daqueles tristes personagens, dado que ela próprio estivera envolvida com eles, desde o início. Ela passa assim a ser a narradora.
Heathcliff tinha sido levado para o Monte dos Vendavais, pelo senhor Eearnshaw, apiedado por aquela criança abandonada, suja, vestida de andrajos, e " escuro que parece quase filho do diabo"; o filho, Hindley, nunca gostou dele e aproveitava todas as oportunidades para o maltratar, porém, a filha, Cathy, depressa se afeiçoou ao rapaz tornando-se inseparáveis. Pela morte precoce do senhor da casa, Hindley assume o papel de senhor e os maltratos a Heathcliff multiplicam-se, e embora este nunca dê parte de fraco o seu ódio e rancor a Hindley crescem e alimentam-se de ideias vingativas que espera concretizar. Entretanto, o sentimento que une Heathcliff a Cathy cresce em igual medida, tornando-se uma obsessão, de parte a parte. A bela Cathy, que fora sempre travessa e caprichosa, habituada a conseguir tudo o que desejava sente-se enlevada pelo jovem Edgar, rico, bonito e educado, que seduzido pela beleza desta não retrocede perante os sinais nada abonatórios até aí demonstrados e a pede em casamento.
O trio amoroso está condenado ao infortúnio, porém o amor resiste a tudo e todos, e nem a morte prematura acaba com o amor de Heathcliff e Cathy, determinados a ultrapassar a matéria da fisicalidade, deixando pelo caminho destruição e infelicidade, inclusive para os seus descendentes.
O amor destes dois não tem nada de romântico, é destruidor e corrosivo. Heathcliff é a própria personificação do demónio, e Cathy a da loucura narcisista.
Dante Gabriel Rossetti exprime sumamente o romance desta forma: " Um livro diabólico - um monstro incrível... A acção tem lugar no inferno - mas parece que os lugares e pessoas têm nomes ingleses."
Claro que recomendo a leitura.
Título : O Monte dos Vendavais
Autora: Emily Brontë
Nr de Págs: 412
Editora: Relógio d'Água


