terça-feira, 8 de setembro de 2026

Eticamente Errado

Com os meus filhos agora a entrar no mercado de trabalho acompanho as dificuldades  que enfrentam, e compreendo melhor aqueles que optam por trabalhar no estrangeiro, ou preferem trabalhar para empresas estrangeiras. A ética é tão discrepante! 

O patrão português tem , no geral, uma mentalidade medíocre relativamente aos seus funcionários, está certo, o mérito de ter fundado uma empresa é sua, de a gerir para o sucesso idem, porém  esquece totalmente o facto de que não o fez nem faz sozinho, e que os seus colaboradores foram, e são,  fundamentais nesse processo. 

O patrão típico português reserva-se ao direito de beneficiar extraordinariamente do seu estatuto, relativamente aos restantes trabalhadores, porque precisamente não os vê como "colaboradores", mas como "empregados".  E isso constata-se pelo estilo de vida que exibem, e suas famílias, comparativamente com quem trabalha para eles. Daí que aqueles que têm mais capacidades, que sabem o que valem procurem trabalhos onde sejam valorizados. Portanto, a médio e longo prazo estes empresários acabam por ficar com os menos competentes ou com quem não tem alternativa para mudar para melhor, mas todos descontentes. Ora, está provado que este estado de espírito não favorece o rendimento nem qualidade de trabalho, porém, desde que as "coisas rolem" os empresários nem se apercebem, nem se importam. 

A situação tem sido esta de uma forma tacita, porém na última entrevista a que o meu filho foi, o entrevistador ( que era o patrão) perguntou-lhe directamente se ele aceitava fazer horas extra sem ser pago, ao que ele respondeu que " em casos extremos, sim", mas o entrevistador insistiu, é que "na empresa isso acontece muitas vezes, dias e semanas seguidas", e perante a reserva do Duarte, o sentimento de desagrado no rosto daquela pessoa era visível. 

Quando o meu filho saiu da empresa já sabia que não seria chamado; não tinha colaborado no requisito de trabalhar gratuitamente. Ficamos todos bastante chocados, agora já se pergunta de caras se o empregado aceita trabalhar gratuitamente? Que é isto, uma nova forma de escravatura?! 

É moralmente errado mas alguém, no desespero de encontrar trabalho, vai aceitar ser explorado. E eu não condeno esse alguém, condeno o explorador. 

Eu sou filha de um empresário, porém aquilo a que assisti, durante uma altura em que a fábrica da família esteve à beira da falência, foi bem diferente desta mentalidade, o meu pai pagava a todos os seus trabalhadores primeiro, sendo ele o último a receber o salário, que vinha frequentemente incompleto, e por partes. Saber que o meu pai foi este tipo de patrão foi para mim a verdadeira herança, e meu orgulho.  Eu sei que existem empresas portuguesas onde as práticas são pensadas no bem-estar do trabalhador e seu contentamento, porém tal como o meu pai foi, pertencem à excepção. 

É lamentável que estejamos a deixar partir os nossos melhores, é deles que o país precisa para evoluir e enriquecer, mas enquanto a mentalidade individual não mudar a situação no mercado de trabalho permanecerá tão indesejável como se vê. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

"Não gosto de ir ao Ginásio; gosto de ter ido"

Eu não gosto de ir ao Ginásio, gosto de ir ao Yoga uma vez por semana, mas ir ao Ginásio é algo que me custa imenso, por isso adiei quanto pude inscrever-me. Porém, por uma questão de saúde, constatei que estava a perder visivelmente massa muscular ( o que ocorre muito após a menopausa), e senti-me forçada a fazer algo, e o Ginásio foi a resposta. Portanto, desde fevereiro de 2025 que faço desporto no Ginásio, duas vezes por semana. 

As desculpas para não ir são diárias, e apesar de ter escolhido, para mim mesma, dois dias fixos para fazer ginástica, frequentemente adio a ida pelos mais diversos motivos, ou está a chover, ou está calor, ou prefiro fazer outra coisa qualquer, porém, forço-me a ir, ainda que sejam os dois dias seguidos, o que não gosto realmente de fazer, o que acontece raramente, mas acabo por ir. 

Outra forma de me "coagir" foi ter optado por um plano pago de 3 em 3 meses, que oferece o 4º mês, e isso é outra coisa que me motiva, saber que paguei e não estou a usufruir. Então vou. 

O importante foi dar o passo de me inscrever; a perseverança em manter-me lá é um exercício mental que faço com foco na saúde, na força, na vitalidade, que me irá proporcionar uma velhice mais fácil, portanto isto é uma espécie de investimento em mim mesma. E contudo, é inegável os efeitos que sinto após frequentar o Ginásio, tenho mais força, canso-me menos, tenho a musculatura mais definida, saio de lá mentalmente mais "arejada", e com uma sensação de dever cumprido; como disse uma colega minha : Não gosto de ir ao ginásio, gosto de ter ido!". Tal e qual. 

Outro benefício que notei foi como o Ginásio combate a dor; tenho uma lesão no menisco do joelho esquerdo, que de longe a longe me provoca uma dor de variável intensidade, mas sempre muito incomodativa, e notei que quando faço exercício a dor desaparece. Também já me aconteceu acordar com dor nas costas ( tenho escoliose) , vou ao Ginásio e a dor passa; constatei isto uma vez por acaso, tinha mesmo que ir naquele dia, apesar de estar com dor, fui e a dor sumiu! Até aí, a minha mentalidade era de evitar ir ao Ginásio quando tinha dor, com receio de esforçar aquele músculo ou membro e fazer piorar, porém o que percebi foi que precisamente acontece o contrário, quando a dor surge o exercício físico resolve. Compreendi que se eu não fizer nada a dor estala-se naquele sítio e toma conta da situação, que eu ao contrariar a dor a estou a substituí-la por uma oposição de força, esforço, saúde, que tomam conta do sítio e se instalam. Não sei se isto fará sentido para quem lê, mas é mesmo assim, se deixarmos instalar seja o que for num determinado sítio, aquilo permanece, é necessário não apenas retirá-lo mas substituir, por algo melhor. 

Então o Ginásio ensinou-me que a consistência é necessária, a paciência fundamental, e que, sobretudo, a autodisciplina é primordial.  

Seria bom gostar de ir ao Ginásio, como a minha amiga que me "arrastou" para lá, e que vai diariamente, mas pode ser que um dia descubra que já tenho esse gosto instalado ( dizem que o Desporto vicia) , entretanto foco-me naquela ideia de um dia de cada vez, e deste modo tem corrido muito bem. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Estado & Empregadores Portugueses - Falhanço Total

Tanto quanto eu saiba em todas as minhas gerações até ao meu bisavó tivemos sempre pessoas a emigrar, ele para o Brasil, mas também para África, América do Norte, França e Alemanha. Uns voltaram outros não. Mas na minha geração já não tivemos ninguém e eu pensei, sem duvidar, que Portugal tinha atingido um patamar de segurança que iria permitir aos portugueses permanecerem no seu país e conseguirem ter uma vida confortável. Quão enganada estava eu!

Já se fala há alguns anos (serão décadas?) da quantidade absurda de jovens formados que trocam Portugal por outros países onde as suas profissões são necessárias e valorizadas, de como as suas formações académicas ficam dispendiosas ao Estado Português, e que quem beneficia desse investimento são nações estrangeiras, que em nada contribuíram para esta mão-de-obra especializada. 

Que a nossa "nata"  está a ser trocada por pessoas desqualificadas ( o mito dos doutores e engenheiros já foi desmontado), tornando  Portugal ainda mais pobre. 

Agora que eu estou ainda mais perto desta realidade constato que não apenas são culpados os governantes como os empregadores portugueses, a mentalidade dos empresários portugueses é retrógrada e egoísta. Como esperar que um jovem arquitecto, que suou as estopinhas durante cinco anos, se contente em trabalhar por 950€, durante o primeiro ano? Sobretudo quando na perspectiva de ficar lhe pagam 1.100€?  Quando sabem que horas extraordinárias são comuns e não-pagas? 

Já são profissionais qualificados e continuam a ter vida de estudantes, não podem pagar mais do que um quarto alugado, num apartamento que partilham. Não podem permitir-se viver com os namorados, ou casar, porque nem um nem outro conseguem financeiramente ter a vida autónoma que precisam.

A maioria destes jovens regressa a casa dos pais, que frequentemente também lhes patrocina o carro, portanto o vencimento de que auferem é baixo mas total lucro, ainda dá para comprar umas roupas de marca e fazer umas viagens, porém, para aqueles que ambicionam trabalhar em gabinetes famosos, em empresas de renome, na maioria das vezes têm que se deslocar das casas familiares, e a vida por conta deles regressa ao orçamento contido de estudante. 

Por conseguinte, nem todos os jovens se conformam com estas possibilidades. Têm outras ambições e sonhos, e para tal são forçados a abandonar o seu país,  cá não se realizam. 

E eu responsabilizo em grande parte os empresários portugueses, enquanto não compreenderem que a riqueza criada nas suas empresas é também do mérito dos seus colaboradores, e que por isso devem ser recompensados, e continuarem a despender apenas no seu estilo de vida que reflecte o sucesso pessoal, Portugal vai continuar a perder os seus melhores.  As empresas portuguesas vão continuar a perder os seus melhores, e isto constata-se, actualmente todos os jovens que querem ficar em Portugal procuram, primeiramente, empresas estrangeiras como empregadores, pois o trabalho à distância dá-lhes essa possibilidade, e os benefícios incomparáveis. 

A mentalidade do empresário português comum continua a ser medíocre, tanto este como o Estado são aves rapaces que pouco respeito merecem. Sinto-me muito indignada com este estado de coisas, não me parece que aceitá-las e normalizá-las seja benéfico para a sociedade, em nenhum aspecto, ficamos todos mais pobres, e a nível de capital humano é absolutamente deplorável. 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Ninho Vazio & Desapego

Sabem o que a a Numerologia? Assim abreviado e simplificado é uma "ciência" que revela imenso sobre nós através do nosso nome. Há muitos, muitos, anos tive curiosidade e alguém me fez esse estudo, encontrei-o estes dias, guardado entre outras coisas e li por alto , de tudo ressaltou-me o conselho de desenvolver o desapego. 
Palavra que eu tenho,  desde há alguns anos, intencionalmente praticado o desapego,  e achava até que estava a fazer um bom trabalho, porém este estudo surgindo-me neste momento, quando nem sequer o procurava, ressoou em mim como um sino de igreja. Entrei agora num outro nível, já não é desapego material, estes dias, estas semanas, este mês, tenho que me preparar não apenas para me desapegar da matéria, do físico, mas também do emocional, com a partida da minha filha para o estrangeiro. 

Já não é apenas a semana passada em Coimbra. Nem um semestre na Polónia. Nem um estágio na Chéquia. Tudo isso tinha bilhete de regresso, agora só há bilhete de ida, pois a mudança planeada será permanente. 

Recordo -me das vezes que outras mães me contavam sobre os filhos que tinham emigrado, e concluíam " O que nós queremos é que eles sejam felizes, não é?",  e eu respondia sempre: Sim, queremos, mas se eles pudessem ser felizes perto de nós era melhor. 
Nunca a ideia me agradou, nunca a achei natural, o natural é as famílias ficarem juntas, e existir convívio e ajuda inter-geracional, mas também não serei eu a cortar as asas dos meus filhos. Continuarei a fazer o que sempre fiz, a apoiar, a escutar, a aconselhar, e a rezar. 

Lembro-me também das vezes em que à noite, já deitada na minha cama, pensava na tranquilidade que era saber que tinha os meus filhos em casa, cada um a dormir no seu quarto. A paz que aquele pensamento me proporcionava! Ainda bem que na época eu tive o discernimento de observar e apreciar esse tempo. 

É apenas mais uma fase, desta aventura da maternidade, que terei de processar, esta está instalada na área do desapego

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

"Nós não somos o que dizemos, somos o que fazemos"

O meu primo recebeu um estorno de um valor pago como caução, com um zero a mais, isto é, em vez de 200€ recebeu 2,000€. Não se apercebeu de imediato, e naquelas horas nocturnas que se seguiram perguntou a todos da família com quem se cruzou o que fariam, se estivessem no lugar dele. A empresa é internacional, o valor não teria impacto na sua economia, e podia até ser que não viessem nunca a notar o engano, acrescentava ele. 

Eu estava com a Letícia e respondemos em uníssono: "devolvia"; depois expliquei que o dinheiro não era meu, e que para a empresa  poderia não fazer diferença, mas para o funcionário que cometeu o erro poderia fazer, provavelmente pagaria ele através do seu ordenado, e ainda seria despedido. Falamos mais um pouco sobre o caso e prosseguimos para outros assuntos. 
No dia seguinte estivemos novamente juntos num passeio de família, e o meu filho foi no carro do primo, que durante a viagem lhe colocou também o dilema. Entretanto, eu e a Letícia não tínhamos comentado nada sobre o caso com ele, o Duarte ignorava totalmente a questão, portanto foi apanhado de surpresa, este ponto é importante. 

Quando já estávamos a fazer a caminhada, diz-me o meu primo que durante a viagem tinha feito "a pergunta" ao Duarte, e riu-se, o que me levou logo a pronunciar um "óh-óh!"  dubitativo, porém ele retorquiu de imediato: Espera, vais ficar orgulhosa dele. E continuou com a resposta do Duarte: - Bem, eu reconheço que é bastante tentador... mas depois perguntava-me " o que faria a minha mãe, neste caso?" E a minha mãe devolvia o dinheiro, então eu também faria o mesmo. " 
O meu primo achou muito interessante como ele foi desconstruindo a situação, até chegar a uma decisão. Mas eu fiquei realmente orgulhosa, e emocionei-me mesmo. 
O meu filho não é nenhum menino, é um homem já com 25 anos, mas revelou neste episódio tudo aquilo que eu tenho defendido aqui ao longo dos 20 anos de existência deste blogue, que a educação vem pelo exemplo. 

Nós, pais, não devemos desencorajar nunca, o nosso comportamento é a bússola que vai guiar os nossos filhos, mesmo inconscientemente replicam-nos, e por isso é importante que tenhamos também um fio de prumo, uma linha ética e moral que nos conduza ao longo da vida, por nós e pela nossa descendência. A nossa responsabilidade enquanto educadores é marcante e fundamental, não devemos nunca abdicar dela, nem delegá-la seja a quem for.  E sobretudo, devemos educar pela coerência e consistência, dizer e fazer, estamos a ser escrutinados 24horas sobre 24, e isso irá dar frutos. Bons ou menos bons, e a responsabilidade vai ser nossa. 


quarta-feira, 29 de julho de 2026

Do Silêncio Vem a Resposta

Vi um vídeo de alguém a dizer que se nos sentarmos de 30 minutos a 1 hora em total silêncio, sem falar, sem música, só estar parado em silêncio, no final desse tempo a resposta para qualquer problema nos surge. É só levantar e pôr em prática essa resposta, que se irá revelar a solução certa. 

Resolvi testar, sentei-me numa cadeira de madeira, sem almofada, sem descanso para os braços, para evitar adormecer, no jardim, assim entretanto apanhava sol, e punha os pés na terra, e recostei-me, fechando os olhos. 

A audição tornou-se predominante e em vez de pensar fosse no que fosse, ouvi o que me rodeava: o zumbido de uma abelha, o canto dos pardais, o chilrear dos pássaros, os sinos da igreja, a voz de uma criança ao longe, ruído dos carros, um melro a chilrear; por vezes abria os olhos, e como tinha a cabeça recostada, via o céu, e somente o que por ele passava em silêncio, andorinhas, uma borboleta, uma libelinha, pardais, e as nuvens que mudavam de forma continuamente. E foi nelas que julguei encontrar a resposta para a pergunta inicial que fizera, quando me sentei ali com o propósito de encontrar "uma solução" entre duas escolhas. Não creio que funcione desta maneira, porque se estivesse dentro de casa não poderia observar as nuvens, e a resposta não viria dali, porém, vou pôr em prática a resposta que julguei obter, e verei o que acontece. 

Entretanto, tenciono continuar com esta prática que me pareceu muito interessante, pois é um momento que combina aterramento e meditação. Estamos continuamente sob os estímulos do ruído, seja de conversas, seja de música, seja de pensamentos, e esta imobilização silenciosa proporciona uma pausa que acalma a mente e diminui a ansiedade, ao actuar no sistema nervoso central, e reduzir o cortisol.  

E talvez com a prática essas tais respostas com a solução comecem a surgir mais claramente, seja como for este exercício parece-me benéfico e interessante.