segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Estado & Empregadores Portugueses - Falhanço Total

Tanto quanto eu saiba em todas as minhas gerações até ao meu bisavó tivemos sempre pessoas a emigrar, ele para o Brasil, mas também para África, América do Norte, França e Alemanha. Uns voltaram outros não. Mas na minha geração já não tivemos ninguém e eu pensei, sem duvidar, que Portugal tinha atingido um patamar de segurança que iria permitir aos portugueses permanecerem no seu país e conseguirem ter uma vida confortável. Quão enganada estava eu!

Já se fala há alguns anos (serão décadas?) da quantidade absurda de jovens formados que trocam Portugal por outros países onde as suas profissões são necessárias e valorizadas, de como as suas formações académicas ficam dispendiosas ao Estado Português, e que quem beneficia desse investimento são nações estrangeiras, que em nada contribuíram para esta mão-de-obra especializada. 

Que a nossa "nata"  está a ser trocada por pessoas desqualificadas ( o mito dos doutores e engenheiros já foi desmontado), tornando  Portugal ainda mais pobre. 

Agora que eu estou ainda mais perto desta realidade constato que não apenas são culpados os governantes como os empregadores portugueses, a mentalidade dos empresários portugueses é retrógrada e egoísta. Como esperar que um jovem arquitecto, que suou as estopinhas durante cinco anos, se contente em trabalhar por 950€, durante o primeiro ano? Sobretudo quando na perspectiva de ficar lhe pagam 1.100€?  Quando sabem que horas extraordinárias são comuns e não-pagas? 

Já são profissionais qualificados e continuam a ter vida de estudantes, não podem pagar mais do que um quarto alugado, num apartamento que partilham. Não podem permitir-se viver com os namorados, ou casar, porque nem um nem outro conseguem financeiramente ter a vida autónoma que precisam.

A maioria destes jovens regressa a casa dos pais, que frequentemente também lhes patrocina o carro, portanto o vencimento de que auferem é baixo mas total lucro, ainda dá para comprar umas roupas de marca e fazer umas viagens, porém, para aqueles que ambicionam trabalhar em gabinetes famosos, em empresas de renome, na maioria das vezes têm que se deslocar das casas familiares, e a vida por conta deles regressa ao orçamento contido de estudante. 

Por conseguinte, nem todos os jovens se conformam com estas possibilidades. Têm outras ambições e sonhos, e para tal são forçados a abandonar o seu país,  cá não se realizam. 

E eu responsabilizo em grande parte os empresários portugueses, enquanto não compreenderem que a riqueza criada nas suas empresas é também do mérito dos seus colaboradores, e que por isso devem ser recompensados, e continuarem a despender apenas no seu estilo de vida que reflecte o sucesso pessoal, Portugal vai continuar a perder os seus melhores.  As empresas portuguesas vão continuar a perder os seus melhores, e isto constata-se, actualmente todos os jovens que querem ficar em Portugal procuram, primeiramente, empresas estrangeiras como empregadores, pois o trabalho à distância dá-lhes essa possibilidade, e os benefícios incomparáveis. 

A mentalidade do empresário português comum continua a ser medíocre, tanto este como o Estado são aves rapaces que pouco respeito merecem. Sinto-me muito indignada com este estado de coisas, não me parece que aceitá-las e normalizá-las seja benéfico para a sociedade, em nenhum aspecto, ficamos todos mais pobres, e a nível de capital humano é absolutamente deplorável. 


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Ninho Vazio & Desapego

Sabem o que a a Numerologia? Assim abreviado e simplificado é uma "ciência" que revela imenso sobre nós através do nosso nome. Há muitos, muitos, anos tive curiosidade e alguém me fez esse estudo, encontrei-o estes dias, guardado entre outras coisas e li por alto , de tudo ressaltou-me o conselho de desenvolver o desapego. 
Palavra que eu tenho,  desde há alguns anos, intencionalmente praticado o desapego,  e achava até que estava a fazer um bom trabalho, porém este estudo surgindo-me neste momento, quando nem sequer o procurava, ressoou em mim como um sino de igreja. Entrei agora num outro nível, já não é desapego material, estes dias, estas semanas, este mês, tenho que me preparar não apenas para me desapegar da matéria, do físico, mas também do emocional, com a partida da minha filha para o estrangeiro. 

Já não é apenas a semana passada em Coimbra. Nem um semestre na Polónia. Nem um estágio na Chéquia. Tudo isso tinha bilhete de regresso, agora só há bilhete de ida, pois a mudança planeada será permanente. 

Recordo -me das vezes que outras mães me contavam sobre os filhos que tinham emigrado, e concluíam " O que nós queremos é que eles sejam felizes, não é?",  e eu respondia sempre: Sim, queremos, mas se eles pudessem ser felizes perto de nós era melhor. 
Nunca a ideia me agradou, nunca a achei natural, o natural é as famílias ficarem juntas, e existir convívio e ajuda inter-geracional, mas também não serei eu a cortar as asas dos meus filhos. Continuarei a fazer o que sempre fiz, a apoiar, a escutar, a aconselhar, e a rezar. 

Lembro-me também das vezes em que à noite, já deitada na minha cama, pensava na tranquilidade que era saber que tinha os meus filhos em casa, cada um a dormir no seu quarto. A paz que aquele pensamento me proporcionava! Ainda bem que na época eu tive o discernimento de observar e apreciar esse tempo. 

É apenas mais uma fase, desta aventura da maternidade, que terei de processar, esta está instalada na área do desapego

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

"Nós não somos o que dizemos, somos o que fazemos"

O meu primo recebeu um estorno de um valor pago como caução, com um zero a mais, isto é, em vez de 200€ recebeu 2,000€. Não se apercebeu de imediato, e naquelas horas nocturnas que se seguiram perguntou a todos da família com quem se cruzou o que fariam, se estivessem no lugar dele. A empresa é internacional, o valor não teria impacto na sua economia, e podia até ser que não viessem nunca a notar o engano, acrescentava ele. 

Eu estava com a Letícia e respondemos em uníssono: "devolvia"; depois expliquei que o dinheiro não era meu, e que para a empresa  poderia não fazer diferença, mas para o funcionário que cometeu o erro poderia fazer, provavelmente pagaria ele através do seu ordenado, e ainda seria despedido. Falamos mais um pouco sobre o caso e prosseguimos para outros assuntos. 
No dia seguinte estivemos novamente juntos num passeio de família, e o meu filho foi no carro do primo, que durante a viagem lhe colocou também o dilema. Entretanto, eu e a Letícia não tínhamos comentado nada sobre o caso com ele, o Duarte ignorava totalmente a questão, portanto foi apanhado de surpresa, este ponto é importante. 

Quando já estávamos a fazer a caminhada, diz-me o meu primo que durante a viagem tinha feito "a pergunta" ao Duarte, e riu-se, o que me levou logo a pronunciar um "óh-óh!"  dubitativo, porém ele retorquiu de imediato: Espera, vais ficar orgulhosa dele. E continuou com a resposta do Duarte: - Bem, eu reconheço que é bastante tentador... mas depois perguntava-me " o que faria a minha mãe, neste caso?" E a minha mãe devolvia o dinheiro, então eu também faria o mesmo. " 
O meu primo achou muito interessante como ele foi desconstruindo a situação, até chegar a uma decisão. Mas eu fiquei realmente orgulhosa, e emocionei-me mesmo. 
O meu filho não é nenhum menino, é um homem já com 25 anos, mas revelou neste episódio tudo aquilo que eu tenho defendido aqui ao longo dos 20 anos de existência deste blogue, que a educação vem pelo exemplo. 

Nós, pais, não devemos desencorajar nunca, o nosso comportamento é a bússola que vai guiar os nossos filhos, mesmo inconscientemente replicam-nos, e por isso é importante que tenhamos também um fio de prumo, uma linha ética e moral que nos conduza ao longo da vida, por nós e pela nossa descendência. A nossa responsabilidade enquanto educadores é marcante e fundamental, não devemos nunca abdicar dela, nem delegá-la seja a quem for.  E sobretudo, devemos educar pela coerência e consistência, dizer e fazer, estamos a ser escrutinados 24horas sobre 24, e isso irá dar frutos. Bons ou menos bons, e a responsabilidade vai ser nossa. 


quarta-feira, 29 de julho de 2026

Do Silêncio Vem a Resposta

Vi um vídeo de alguém a dizer que se nos sentarmos de 30 minutos a 1 hora em total silêncio, sem falar, sem música, só estar parado em silêncio, no final desse tempo a resposta para qualquer problema nos surge. É só levantar e pôr em prática essa resposta, que se irá revelar a solução certa. 

Resolvi testar, sentei-me numa cadeira de madeira, sem almofada, sem descanso para os braços, para evitar adormecer, no jardim, assim entretanto apanhava sol, e punha os pés na terra, e recostei-me, fechando os olhos. 

A audição tornou-se predominante e em vez de pensar fosse no que fosse, ouvi o que me rodeava: o zumbido de uma abelha, o canto dos pardais, o chilrear dos pássaros, os sinos da igreja, a voz de uma criança ao longe, ruído dos carros, um melro a chilrear; por vezes abria os olhos, e como tinha a cabeça recostada, via o céu, e somente o que por ele passava em silêncio, andorinhas, uma borboleta, uma libelinha, pardais, e as nuvens que mudavam de forma continuamente. E foi nelas que julguei encontrar a resposta para a pergunta inicial que fizera, quando me sentei ali com o propósito de encontrar "uma solução" entre duas escolhas. Não creio que funcione desta maneira, porque se estivesse dentro de casa não poderia observar as nuvens, e a resposta não viria dali, porém, vou pôr em prática a resposta que julguei obter, e verei o que acontece. 

Entretanto, tenciono continuar com esta prática que me pareceu muito interessante, pois é um momento que combina aterramento e meditação. Estamos continuamente sob os estímulos do ruído, seja de conversas, seja de música, seja de pensamentos, e esta imobilização silenciosa proporciona uma pausa que acalma a mente e diminui a ansiedade, ao actuar no sistema nervoso central, e reduzir o cortisol.  

E talvez com a prática essas tais respostas com a solução comecem a surgir mais claramente, seja como for este exercício parece-me benéfico e interessante. 

quarta-feira, 22 de julho de 2026

E Que Profissão Escolher, Agora?

É incrível, ainda, a quantidade de pessoas que escolhe as profissões por pressão dos pais; eu compreendo que a maioria dos jovens, aos 18 anos, não saiba que profissão gostaria de ter, e sendo obrigados a escolher uma área ficam mais vulneráveis a indicações parentais, e estes, o que querem no fundo é que os filhos fiquem "bem", ou seja, que ganhem bem a vida. E quem pode recriminar os pais por tal desejo? 

A mim, o que mais me custa é saber daqueles casos em que os jovens sabem muitíssimo bem o que querem mas não lhes é permitido seguir essas áreas por uma questão de status. Os pais que forçam os filhos a optar por áreas opostas àquelas  que eles gostariam de estudar, e posteriormente trabalhar, quando eles são realmente bons nessas áreas e com óbvia paixão pelas mesmas, porque os filhos têm médias para entrar em cursos mais prestigiados, que para os pais é o factor supremo, estão a condenar os filhos à insatisfação, frustração e frequentemente à depressão. 

Conheci estes dias mais um destes casos, já com cerca de trinta anos, ainda a fazer formações, no pós-laboral,  na área que adora e a sonhar em mudar de carreira. De fora, a carreira que desempenha há treze anos no Parlamento Europeu, é invejável. Mas não para ele. 

Quando a decisão é nossa não há a quem culpar se as coisas não correrem muito bem, porém quando há a quem se possa pontar o dedo surgem sentimentos e emoções nada bons, e ainda que pareça estar tudo bem nos relacionamentos, há recalcamentos que acabam por surgir, mais cedo ou mais tarde, na forma de piadas, de ironias, e até de agressividade. 

Devemos permitir aos nossos filhos liberdade total? Não creio, devemos conversar com eles expondo os aspectos negativos  das escolhas, que a idade e experiencia de vida nos proporcionou, e a eles ainda não. Devemos confrontá-los com a responsabilidade da escolha. Este é um momento em que o jogo do equilíbrio parental deve ser executado em consciência, nem pais dominadores, nem pais omissos. Pais honestos, atentos sim, preocupados também, mas pais sem agenda própria. 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Orquestra XXI - Orgulho Português

Ontem assistimos ao concerto da Orquestra XXI, pela primeira vez, e foi soberbo! 

Composta por músicos portugueses residentes no estrangeiro, muitos membros de orquestras prestigiadas,  dirigida pelo premiado maestro Dinis Sousa desde a sua criação, reconhecida como uma das comunidades culturais mais inspiradoras de Portugal, reflecte sem dúvida uma grande cumplicidade entre músicos e maestro, resultando num som poderoso e único. 

Não sou musicóloga , mas sou melómana, e nem sequer vou frequentemente a concertos de música clássica, por isso a minha opinião vale por mim apenas, porém, vi e ouvi pela primeira vez a união do instrumento com o músico, já não se distinguia um do outro, e depois cada músico como um só corpo, foi arrepiante. 

Começaram com uma peça de Andreia Pinto Correia, não gosto no geral de música contemporânea, mas Antonin Dvorak e a pianista convidada, Marie-Ange Nguci foram extraordinários. 

Não sei o que me reserva este Verão, todavia para já este foi o seu grande momento, para mim. 

Aconselho muito, vejam os próximos concertos, Guimarães, Porto, Alcobaça e Lisboa,  aqui.

Sinfonia Nr 9 - O novo Mundo, Dvorak