terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

"Deus nos livre do Fado do Dinheiro"

Gosto muito de ditados populares, desde pequena que os ouço, sobretudo através da minha mãe, que frequentemente tem um adequado para variadas situações, e desde sempre me maravilham pela sabedoria do conceito. Tanta sabedoria em tão poucas palavras! 

Sinto que cada vez mais caem em desuso, as gerações mais novas desconhecem-nos e pior, desprezam-nos, como minudências de povos ignorantes, ultrapassados e desnecessários. Agora sabem ler, são escolarizados, e a sabedoria oral de outrora saiu de moda. Eu acho isto uma pena, os ditados populares possuem um conhecimento que resulta da experiencia, e constituem frequentemente conselhos muito avisados, permanecendo úteis até ao dia de hoje. O mundo muda mas a humanidade continua a ser humanidade. Por conseguinte, quando ouço um ditado popular que desconheço o minha mente aguça-se, e tento registá-lo. Foi o caso deste último, que ouvi na Feira, de uma vendedora que me dava umas moedas de troco, acabadas de receber de outras mãos : "Deus nos livre do Fado do Dinheiro".

Como não o entendi de imediato, repeti-o intrigada e perguntei-lhe o que significava, ao que me explicou que o dinheiro não ficava, passava de mão em mão. Retorqui, para animá-la, " Ah, então pelo menos que não páre de vir!", ela sorriu e consentiu: "Sim, que pelo menos nunca falte". 

Entretanto, ao reflectir sobre o ditado, cheguei a outra conclusão; sim, faz sentido que o ditado tenha sido gerado como pedido a Deus para que se consiga guardar algum dinheiro, quando ele era tão pouco que sumia no básico, sem sequer o suprir completamente, mas também poderá ter outro significado que pela mudança social se esvaziou de sentido, pois isso também está na origem de muitos ditados populares desaparecerem, deixam de ser pertinentes por já não espelharem a realidade. Na minha interpretação, isto é também uma espécie de esconjuro para o próprio indivíduo, ou seja, um pedido a Deus para que nós próprios não passemos de mão em mão, seja para as mulheres não passarem de homem para homem, era o fim da sua reputação, seja para os homens não passarem de senhor em senhor. Parece-me que a origem do provérbio vem de um tempo em que a estabilidade garantia aceitação social e pão na mesa, por isso até há bem pouco tempo as pessoas começavam a trabalhar numa casa, numa família, num negócio e aí cresciam e envelheciam. 

Portanto, para além da indiferença da modernidade da sociedade, os ditados populares também se tornam dispensáveis pelo falta de necessidade. O que não se usa descarta-se. 

Felizmente, houve e há quem os compile e se debruce no seu estudo, certamente para memória futura, porém nunca se sabe se mesmo desfasados não poderão voltar a ser repescados, a certa altura, pelos mais diversos motivos, nem que seja para reflectir nos significados e compreender a origem, trazendo mais luz sobre os tempos de outrora. 

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