quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Historinhas

Não há coisas que eu inveje, coisas propriamente materiais que inveje. As minhas invejas recaem mais sobre coisas, como por exemplo, a facilidade com que algumas pessoas têm de fazer uma história. Quando contam as suas peripécias, espantam-me sempre pela abundância de acontecimentos reais que as originaram. E penso com os meus botões quão banal é a minha vida, quase nada acontece digno de memória, quanto mais digno de replica, oral ou escrita. 

Portanto a estas pessoas, a matéria-prima que compõe a escrita é tecida num fio condutor que desfia directamente das suas vidas. Logo as suas vidas são excepcionalmente ricas em experiências,  acontecem-lhes as coisas mais caricatas e inesperadas, e as pessoas mais excêntricas e profundas são atraídas para elas como insectos pela luz, como uma sub-urdidura que termina naqueles textos que eu leio. 
Pelo menos era assim que eu pensava até recentemente; e em abono da verdade, poderia ter suspeitado que a quota de fantasia do autor não estaria ausente de todo, mas quando os próprios autores anunciam os artigos como crónicas, e afirmam as histórias como reais, penso que a minha culpa ou ingenuidade deixa de ser a principal responsável deste julgamento. 
Desfez-se este encanto, quando a jornalista que leio no seu blogue, contou num dos seus posts, que a família lhe perguntou admirada, quem eram aquelas pessoas que habitualmente aparecem nas suas histórias, uma vez que eles obrigatoriamente teriam também de as conhecer. E ela teve que concordar que já não eram pessoas, tinham-se tornado personagens, que a sua imaginação fora mais além daquilo que todos viam. Ora, ora...
E então, vem a Lídia Jorge numa das suas crónicas, falar de Santa Apolónia, e de quando foi abordada por uma jovem estrangeira de Leste, que pedia esmola para o filho pequenino, e lhe retorquíra: isso não se faz, sabe, mentir, dizer que tem um filho, e a rapariga desabotoa o blusa, aperta um mamilo e sai dele leite.
Como é que ela foi capaz?!

Quantas vezes, me pediram dinheiro para os filhos, e eu nunca me atrevi a questionar, verbalmente, as razões da mendicidade. Nunca me ocorreu exprimir a minha dúvida, assim como não o faço com o pretexto da fome. Não significa que não duvide, mas também que não seja verdade, e por isso, não querendo roubar-lhes alguma réstia de dignidade que porventura possam ainda possuir, costumo dar sem palavras de afronta. Se eu tivesse originado uma cena destas com esta mendiga, haveria de querer que o chão se abrisse a meus pés e me puxasse para as profundezas da terra. Haveria de guardar a história fechada a sete chaves na minha memória, mas sempre com vergonha e arrependimento. Não teria o estofo para a pôr em palavras, quanto mais partilhá-la publicamente.
E portanto, talvez seja tudo isto que os autores possuem afinal. Não uma sucessão de histórias incríveis com pessoas sui-generis, afluindo às suas vidas como um rio que corre sem parar, mas uma fantasia desbragada, e um total despudor relativo a tudo o que os rodeia. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Leitura: O tempo entre costuras

 
Via


Escolhi este livro por ser de uma autora contemporânea espanhola, e por desconhecer o que se escreve em Espanha, actualmente. Apetecia-me ler algo pela pena de uma mulher, a modos que calhou de ser este. Confesso que desde logo me senti tentada a abandonar o livro, não era o que esperava nem estava a gostar. Porém, tenho uma coisa comigo, que é esta de nunca desistir da leitura, persistir até à ultima página; pode ser que a determinado ponto surja uma reviravolta que me cative. Não era o caso, eu já o sabia, era mesmo porque não o queria deixar inacabado. Desde logo entendi que este tipo de escrita e história não são o meu género. Mas, depois de pousar o livro e pegar nele, por diversas vezes, acabei por terminá-lo. Quer dizer, não há razão nenhuma para não podermos desistir de um livro, se ele não nos estiver a agradar. É prerrogativa do leitor, ora essa! E todavia, eu não consigo fazê-lo! E pensava: estou eu a perder o meu tempo com este livro, quando há tantos livros excelentes para ler! Mas após alguns dias, voltava à leitura. Talvez seja esta característica intrínseca de desistir das coisas ao fim de pouco tempo que me faz teimar. Porque a partir do momento que percebi que tinha este defeito, enfiei na cabeça que o haveria de eliminar. E assim o tenho feito nas últimas décadas. Só a isso atribuo o facto de não me conseguir desvincular do livro!

Enfim, é uma leitura levezinha, livro para levar para a praia, para espairecer a cabeça, e pronto, também aprender um pouco sobre a História de Espanha, sobretudo na época da guerra civil e primeiros anos do governo de Franco. 
Sira, a protagonista, é uma modesta aprendiz de modista, que vê a sua vida dar uma reviravolta de 180º, quando o pai que até à idade adulta desconhecia, decide apresentar-se e presenteá-la com uma enorme soma de dinheiro e jóias. Para o bem muda a sua vida, para logo de seguida se estender ao comprido e cair na maior das pobrezas. Quer a sorte que a seu lado surjam pessoas de bem, que a ajudam a recuperar e por-se de pé, montando-lhe um atelier de costura. Por essa ocasião entra em cena uma senhora inglesa que a introduz no mundo restrito da política, pela qual Sira se adentra, metamorfoseando-se numa espia de alto gabarito. Pelo meio há, claro, histórias de amor, viagens e estadias entre Madrid, Marrocos e Lisboa. E moda. 
Entre costuras, trabalhava a requintada modista, num mundo em convulsão preparando-se já para a segunda guerra mundial, com destreza e inteligência, tal qual uma espia treinada pela polícia mais capaz possível. Assim sendo, só poderia ter um final feliz!

"O tempo entre costuras"
Autora: Maria Dueñas
Porto Editora
Pág. 348

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

As delícias ou perigos da I.A. ?

 
Via


Tenho que fazer este preâmbulo, pois já ouvi vezes demais mulheres, que por acaso são mães, afirmarem-se indiferentes a questões que à partida são "apenas" políticas, ou ambientais, ou sociais. E se na minha óptica qualquer cidadão deveria acompanhar estas questões, nós, as mães, muito mais interessadas deveríamos estar. Não basta educar, cuidar muito bem dos nossos filhos, proporcionar-lhes estudos e comodidades. O nosso papel não se circunscreve à esfera familiar, no que lhes diz respeito. Trata-se do futuro! E nós vamos cá deixar a nossa descendência.

Ouvi, inserido no Festival da Antena2, uma palestra sobre Inteligência Artificial, com os próprios "pais da I.A. em Portugal", e diz o professor Paulo Novais (com um curriculum extenso e desnecessário de reproduzir aqui), para não termos medo que os robots nos tirem os empregos, que isso não vai acontecer, e que aliás muitos desses trabalhos em nada dignificam a humanidade. A paixão com que fala da I.A. faz-me lembrar os jovens apaixonados pela primeira vez, não há defeito que se aponte. Os robots fazem isto, os robots são capazes daquilo, até já ganham aos campeões de xadrez! E quantas maravilhas mais estão no horizonte!

Se não o tivesse ouvido referir a eficiência de robots como PT's ou advogados, até poderia acreditar que robots-pedreiros, pescadores, mineiros, e até prostitutas, felizmente substituiriam  os homens. Mas não, as referências são todas intelectuais, e a subtracção das profissões nestas áreas, não só me parecem não encaixar na causa da indignidade, como podem ser desempenhados por humanos com facilidade e gosto.
Diz ainda que a redução do emprego dará mais tempo aos homens para actividades criativas, e eu pergunto: estamos todos talhados para as ter? Ou há muitos dentre nós, que por incapacidade, não se importam, e até encontram conforto, no desempenho das actividades repetitivas?

Seja como for, os empregos são desempenhados, sobretudo, para que o homem ganhe dinheiro, e sem empregos, para além da inutilidade que muitos sentirão, há-de faltar-lhes o sustento. Cenário para que surja uma crise sem precedentes na raça humana.

Se eu já tinha muitas reservas relativamente à I.A., depois de ouvir estes palestrantes fiquei mais inquieta ainda. São intelectuais inebriados pelas possibilidades infinitas que esta área lhes traz, e quiçá, ambicionando serem os primeiros a fazer algo com a I.A. que os inscreva na História. Se realmente o fazem pelo bem da humanidade? Fiquei com sérias dúvidas.


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Kichari - Comida Ayurveda


Há algum tempo publiquei esta introdução ao Ayurveda, algo que me tem interessado ultimamente, e portanto este sistema milenar hindu de medicina tradicional está inextricavelmente ligado à alimentação. Este prato é indicado para os três doshas: Vata, Pitta e Kapha. 

É uma refeição muito prática, saborosa e reconfortante. Mesmo boa para os dias frios de Inverno.


Kichari* (de Limpeza Simples)

Ingredientes: (4 porções)
 

250 ml de feijão mungo
330 ml de Arroz Basmati
2 colheres de sopa de azeite (originalmente ghee)

1 colher de chá de gengibre fresco, ralado
1 colher de chá de sementes de coentro, finamente moídas
1 colher de chá de sementes de cominho, finamente moídas
1 colher de chá de sementes de funcho, finamente moídas
1 colher de chá de açafrão em pó
1 ml de pó de assa-fétida
1 ½ colher de chá de sal marinho ou do Himalaia rosa


Como fazer: 
Demolhe os feijões durante a noite ou pelo menos 4 horas. lave os feijões duas vezes ou até a água ficar limpa. Lave também o arroz muito bem, até a água ficar limpa; reserve.

Numa panela grande aqueça o azeite/ghee em fogo médio. Em seguida, adicione o gengibre, coentro, cominhos, erva-doce e açafrão. Asse as especiarias no azeite/ghee até começarem a soltar o odor. Baixe o lume, adicione o feijão e arroz. Misture com as especiarias 2 a 3 minutos, envolvendo tudo muito bem.
Adicione água suficiente para que o nível de água na panela seja mais alta que o feijão e arroz. Adicione a assa-fétida e envolva. Cubra. Cozinhe por 15 a 30 minutos ou até que o feijão e o arroz estejam bem cozidos. No final do tempo de cozimento, adicione o sal e mexa bem.
 

Preste atenção ao kichari enquanto cozinha; se começar a ficar espesso ou colar no fundo, adicione mais água quente.

A consistência final do kichari deve ser muito macia, húmida e cremosa. 


* Do Blogue The Ayurveda Experience

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Amar não é possuir!

Ontem li uma notícia que me deixou estarrecida, um homem assassinou a ex-sogra e também a filha de 3 anos. Depois suicidou-se. Ou seja, o ódio que tinha à ex-mulher era provavelmente tão forte como o amor que a ex-companheira tinha à sua mãe e filha, e por isso, tirou-lhe aquilo que lhe era mais precioso. Arrebatou-lhe a geração anterior e a posterior. Não a matou, como os outros fizeram a nove mulheres, apenas em Janeiro, mas condenou-a à pior das tortura, a um desgosto que a destroçou para o resto da vida. Aquela mulher nunca mais será a mesma, pode até recuperar com múltiplas ajudas da psicologia, terapias alternativas, apoios diversos, mas para sempre será refém do ódio do ex-companheiro. 

No post anterior partilhei um vídeo muito interessante sobre o amor, e que diz, amar é dar. Sem esperar reciprocidade, sem exigir pagamento, apenas dar. Uma pessoa que ama outra, dá-lhe tudo aquilo que ela pede precisamente por lhe ter amor, e se ela lhe pede liberdade, para amar outra pessoa ou apenas para ficar sozinha, quando se ama realmente, concede-se o desejo. Mesmo com tristeza, com desgosto, com sofrimento, dá-se. Acontece que este conceito de amar nos é culturalmente estranho, estamos sempre esperando reciprocidade, esquecendo que isso já sai da esfera do amor. Isso é comércio.

Estes homens não amam, estes homens possuem, e quando o "objecto" do suposto afecto tenta escapar-lhes, o predador ancestral emerge furiosamente para lutar pela sua posse. 
Mas que mães educaram estes homens, para que tenham esta visão constrangida e distorcida do amor? As mesmas mães que foram educadas por uma sociedade machista, subjugadas para sobreviverem, formatadas para que as deixem a elas em paz. Conheço o caso de uma jovem mulher que temendo pela vida fugiu do país, deixando para trás as filhas pequenas com o marido e sogra, que de resto já era quem cuidava delas. Por desespero e desamparo, abdicou das meninas, mas a estas nunca a avó lhes contou esta versão, antes as acicatava no ódio. Para espanto, tinha sido esta senhora também vítima da violência do marido alcoólico. E aguentando por anos a sua cruz, enquanto ele foi vivo, acreditava também que a nora deveria fazer o mesmo, aceitando a violência do filho. 
Esta mulher escapou, recomeçou uma nova vida, e diz-se nova família, e que está bem. Mas a que preço? E depois desse preço pago, poderá ela estar realmente bem? E as filhas? Não creio. 

Andava o meu filho no 1º ciclo quando me disse que gostava de uma menina da sua turma, mas que ela não gostava dele; quando lhe perguntei se isso o fizera triste, respondeu-me prontamente: Não. Há muito peixe no mar! Parece que esta noção faz falta a muitos homens, há décadas que ouço dizer que a proporção de mulheres para homens é de sete, e nem com essa vantagem se dão eles por satisfeitos! Porque a questão não é esta, não é exterior, é precisamente interior, mentes perturbadas pelo orgulho e vaidade, que não admitem ser dispensados. Eles é que dispensam. 

As mulheres não assassinam os companheiros. Podem ficar doentes de desgosto, prostradas na cama por dias, chorar ao alto desconsoladas, mas ao fim de algum tempo lavam o rosto e seguem com a vida. Porque as mulheres, desde o inicio dos tempos que geram vida dentro delas; alimentam-nas com os seus fluídos, e viram-se do avesso para as alimentar quando estão cá fora.  Isto de tirar a vida é um absoluto contrário ao que fazem há milhões de anos. 
Por vezes, deixam de acreditar nos homens, dizem que não os querem ver nem pintados a ouro, mas certamente que quando lhes surge alguém merecedor da sua confiança, apostam novamente. Umas vezes ganham, outras perdem, mas seguem com a vida. 

É preciso que se comece a dizer aos homens que ninguém é de ninguém. Que a vida segue, mesmo quando quem amamos sai das nossas vidas. Que nós não temos controlo algum sobre os sentimentos, e se não o temos sobre os nossos, muito menos sobre os dos outros, apenas sobre o comportamento. E se mesmo quando o nosso comportamento é correcto, impecável, amoroso e aparentemente perfeito, não chega para que nos amem, devemos deixar partir quem o quer fazer. O amor não é coercivo, pelo contrário, é libertário.