Mostrar mensagens com a etiqueta dica de leitura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta dica de leitura. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Última Leitura - Marking Time

 

Via Blackwells

Este é o segundo volume do "Cazalet chronicles", e como o anterior,  The Light Years, adorei! 

Decorre a II Guerra Mundial  e três gerações de Cazalet saíram de Londres, alvo constante dos bombardeios alemães, refugiando-se na sua casa de campo, e fazendo dela seu domicílio permanente. Os homens da família ficam em Londres durante a semana, para trabalhar na empresa de madeiras, fundada pelo pai, que pela idade e perda de visão se vê, contrariadamente, obrigado a desistir de a gerir.  

Duchy continua a gerir a casa eficientemente, mesmo perante desafios inéditos, como arranjar espaço para as pessoas que continuam a chegar, amigos e familiares, mas também contribuindo para o esforço de guerra, ao abdicar de uma das casas para alojar soldados feridos. Debate-se com a falta de pessoal doméstico e de alimentos, o racionamento exige criatividade, e com os dramas familiares resultantes da guerra, mantendo-se estoicamente o esteio da família. 

Clary e Polly fortalecem a amizade, assumindo-se como melhores amigas, pese embora os segredos que cada uma guarda, por medo de os concretizarem ao vocalizá-los. Os mais novos continuam a aprender com Miss Milliment, a preceptora ideal, altamente competente mas também com uma faceta humana extraordinária, delicada e sensível, pragmática quanto baste, sempre com a palavra certa no momento oportuno, uma referência sólida na educação das gerações que passam por ela. 

As meninas mais velhas saíram do ninho, e apesar da guerra tentam concretizar as suas ambições pessoais, amorosas e profissionais, de forma audaz e perseverante. 

Villy e Sybil vivem dias desafiante de ordem amorosa e de saúde, respectivamente, e o mais dramático é sentirem a dúvida e medo na total solitude, entre tantas pessoas.  

De salientar, os desafios da parentalidade em diversos formatos, também actuais, como por exemplo, quando Peter Rose acusa a filha de não ter aproveitado aprender italiano com ele, e Stella retorquir-lhe que cada lição terminava com as lágrimas dela.  Adiante Louise, diz a Stella que todos os pais são difíceis a partir do momento em que os filhos demonstram vontade própria. 

Christopher é uma personagem com a qual simpatizo particularmente, pela sensibilidade, e por ser assumidamente pacifista, sobretudo numa altura em que era visto como cobardia; a propósito, Polly e Clary debatem a utilidade de ser um objetor de consciência, com Polly a rematar, brilhantemente, que todas as reformas são feitas por uma pequena minoria de quem toda a gente se ri, ou  por mártires. 

Ainda sobre a Guerra, numa casa que adora música clássica, a certa altura alguém lembra que os compositores alemães tinham sido boicotados na guerra anterior, e como isso era ridículo, o que me recordou o início da guerra Ucrânia-Rússia, em que os artistas russos foram despedidos e boicotados na Europa e América; continua tudo igual. 

Através dos Cazalet, Elizabeth Jane Howard continua a dissecar as dores de crescimento de cada personagem, relacionamentos, descoberta de si mesmo, busca do seu lugar no mundo, enfim, todos os problemas que contemplam viver são aflorados e debatidos, sendo agravadas agora por uma guerra que limita e restringe, ao ponto de algumas das personagens sentirem que estão num frustrante compasso de espera. 

Não consigo escolher uma personagem favorita,  cada um possui preciosas características próprias, fragilidades e forças intrinsecamente humanas que me tocam,  todas têm um fundo bondoso, e com todas empatizo,  excepção para Edward, o incógnito vilão desta narrativa. 

Infelizmente, Making Time não está traduzido, o que é profundamente lamentável, por ser um livro brilhante e de leitura viciante. 

Título: Making Time

Autora: Elizabeth Jane Howard

Editora: Pan Books

Nr de Págs: 591

terça-feira, 29 de julho de 2025

Dica de Leitura - Below Stairs

"Quem gostou de Downtown Abbey ou Upstair Down Stairs irá saborear estas memórias exuberantes", e foi com este anúncio que a minha atenção foi captada, e comprei o livro. Contudo, após a leitura concluí que não é exactamente assim.

Margaret Powell, 1907-1984, foi um escritora inglesa que com este primeiro livro, imediato best-seller, se converteu numa personalidade televisiva, e autora de outros livros. 
 
Eu sabia que era o livro de memórias de uma serviçal inglesa, no início do século XX, logo, que não narraria uma vida glamorosa, mas pensei que teria a perspectiva agora de alguém que está nos bastidores de uma casa senhorial, como a de Downtown Abbey, e em simultâneo partilharia a visão desses que vivem na sombra das grandes famílias, sobre eles próprios e seus empregadores. E foi efectivamente assim, foi descrito como viviam os privilegiados, e como viviam os menos afortunados, com mais detalhe ainda, porém, devido ao saltitar constante desta senhora, que no direito dela foi procurando sempre um melhor salário e melhores condições, nunca ficou muito tempo nessas casas, e não teve tempo para se entrosar na intimidade das famílias para as quais trabalhava. É por isso um relato bastante superficial. 

Além disto, a escrita é própria de alguém sem grande instrução, bastante básica, pouco emotiva, limitando-se muito a factos, como se contasse notícias. 
Portanto, era alguém que gostava de ler ( louvável, mas isso não basta, é preciso fazer leituras de qualidade, para aprender e evoluir), e tinha qualidades pessoais de valor, como o empreendedorismo, a audácia, a inteligência de aprender por si, e evoluir, cujos aprendizagens transportou para a sua vida privada, marcando assim um melhor destino para si, a sua família. 

Em suma, é uma leitura leve, daquelas que se fazem rapidamente e recomendada para quem ainda não conhece os bastidores das grandes famílias inglesas. 

Título: Below Stairs
Autora: Margaret Powell
Editora: Pan Books
Nr de Págs: 210
 

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Dica de leitura- "O Doutor Jivago"

Via Alfarrabista Terra Média

Boris Pasternak nasceu em Moscovo, a 10 de fevereiro de 1890; a sua família ucraniana era abastada e de origem judia; o pai, pintor e professor universitário ( aliás, era amigo de Tolstoi e quem lhe ilustrava os livros), a mãe, pianista de concertos e filha de um conhecido industrial. A título de curiosidade, a sua família alegou ser descendente de Isaac Abrabanel, um famoso tesoureiro judeu sefardita do Séc.XV, em Portugal.

Pasternak estudou Filosofia na Alemanha, regressando a Moscovo em 1914, quando publicou a sua colecção de poesias, sendo conhecido na Rússia, principalmente, como poeta.

Em 1958 publicou o romance "O Dr.Jivago" na Itália, o governo russo tinha proibido a sua publicação por entender que era uma crítica ao comunismo, e imediatamente o livro se tornou num sucesso mundial. Nesse ano, Pasternak ganhou o Prémio Nobel da Literatura, porém teve de o recusar, forçado pelo regime soviético, e só 1989, com Mikhail Gorbatchev é que "O Dr Jivago" foi finalmente publicado no seu país. 

Em 1965 o livro foi adaptado ao Cinema, sendo um sucesso estrondoso, mas infelizmente o autor já não viveu para o saber, tinha falecido em 1960. 

Este romance histórico relata as primeiras décadas do século XX, fim da era Imperial e início do bolchevismo na Rússia, através da vida da personagem principal, Iuri Andreievitch, conhecido por Dr.Jivago. Inicialmente, é-nos relatada a vida desafogada da classe privilegiada a que pertence Iuri, ainda um jovem estudante de Medicina, que entra na idade adulta nessa época de convulsão social e política, que se proporcionou a ajustes de contas, frequentemente cegos, entre explorados e exploradores. A vida tornou-se extremamente difícil e desafiante, para além daquilo que o povo já conhecia, e julgava miserável. 

A sociedade russa, todavia, adaptava-se a todos os embates, improvisando e tentando sobreviver. Entretanto, casado e pai de um menino, o Dr.Jivago decide com a mulher sair de Moscovo, devido à insegurança e fome, e ir para a Província, aonde tinham propriedades, em busca de segurança. Após uma longa e atribuladíssima viagem chegam finalmente ao destino, para constatarem que nem nos confins do país se escapa ao sofrimento e miséria humanas. Aí, o Dr. Jivago encontra Lara, uma enfermeira que conhecera na juventude, e a sua vida começa a dividir-se. Entre a sua actividade de médico começa a escrever, algo que há muito ansiava fazer; esses escritos serão mais tarde fonte de rendimento, e muito apreciados.

A família acaba por se separar e o Dr. Jivago regressa, penosamente, a Moscovo, aonde o esperam mais desafios e complexas dificuldades. A II guerra mundial cola-se à catastrófica mudança de regime, comunista, e os russos lutam contra o invasor, prolongando a fome, destruição e tragédia. 

Não é uma leitura fácil de se fazer, acompanhar o desfragmentar da humanidade, a luta pela sobrevivência que chega ao ponto da antropofagia, em que o homem se transforma num animal feroz, que mata para não ser morto; a imposição de uma cultura comunista que termina com a opinião pessoal, com a inspiração do sentido moral, e impõe o passo do grupo; viver segundo conceitos estranhos a todos e o aumento da tirania; a imposição de Leis arbitrárias de forma aleatória, num dia funciona de certa maneira e no dia seguinte aquilo está proibido e severamente castigado, faz-me sentir uma compaixão imensa pelo povo russo. O que eles sofreram é inenarrável. E faz também crescer a minha admiração, pela resiliência, pela inteligência, pela capacidade de improviso e superação. Esta parte humana não raras vezes me comoveu a ponto de pousar o livro, e o fechar, de tão assoberbada me sentir.   

Também possui uma parte mais ligeira mas breve, embora importante para mim, é um gosto ler sobre a cultura clássica imperial russa, como viviam, como eram as suas casas, como recebiam, como preservavam os alimentos de forma natural, as suas referências literárias e musicais, como viviam em família e sociedade, tudo isso me encanta e fascina. 

Por tudo isto é, obviamente, uma leitura que recomendo vivamente. 

Título: O Dr.Jivago

Ayutor: Boris Pasternak 

Editora: Colecção Mil Folhas

Nr de págs:606       

terça-feira, 15 de abril de 2025

Dica de Leitura : O segredo de Champollion

 Via 

O que me atraiu neste livro foi esta frase simples: " A fantástica história da decifração dos hieróglifos"; o mistério do Antigo Egipto tem grande poder sobre mim.

Jean-Michel Riou é formado em Ciências Políticas, autor de diversos livros, e também apaixonado pelo Antigo Egipto, realizando através desta história o sonho de escrever sobre a aventura humana e científica da expedição de Napoleão ao Egipto.

Tendo colocado a Europa em guerra com as sucessivas invasões a diversos países, Napoleão projecta uma expedição ao Egipto em 1798, para a qual convoca uma numerosa equipa de renomados científicos, que transporta em navios, com os seus sofisticados equipamentos, para esse país. Só a preparação e viagem já se revelam atribuladas e perigosas, e nem sequer se sabe ainda, pela certeza, o que Napoleão pretende daquele país. Verão que não é subjugá-lo, embora a certo ponto isso venha a acontecer, e de forma sanguinária, mas antes um objectivo cultural muito definido - a decifração dos hieróglifos dos faraós, que a maioria crê ser tarefa impossível. Mas qual o derradeiro interesse de Napoleão, com isso?
É portanto, com o achado casual da "Pedra de Roseta", que tendo parte traduzida para o grego, que a decifração começa a ser possível, embora ainda extremamente difícil. 

Após alguns anos no Egipto, sem atingir o objectivo, os "sábios" são forçados a partir, juntamente com o exército, recuando perante a ameaça inglesa, deixando para trás grande parte do espólio apreendido, que será confiscado pelos ingleses ( a Pedra de Roseta está no Museu Britânico, em Inglaterra, e também motivou a decifração pelos seus intelectuais, originando uma competição entre as duas nações), sendo já em solo francês que o estudo da decifração se fará por longos anos ainda, pelo genial Jean-François Champollion, que fizera desse objectivo a sua missão de vida. 

O Decifrador, em quem Napoleão depositava uma confiança desesperada,  acabou por ter sucesso, os hieróglifos traduziam-se por "sons e ideias", e contudo o resultado não foi de todo o esperado.  

Pelo meio há episódios de espionagem, de lutas e intrigas, e até romance, tudo contado através de três participantes da expedição, os sábios e amigos Morgan de Spag, Pharos-J Le Jeancem e Orphée de Forjuris, que dividem a narrativa em três partes, e a entregam a uma editora em 1854 para ser aberta em 2004. 

Eu não gosto da figura de Napoleão, um facínora que invadiu países, roubou, destruiu e matou, e aqui foi-me novamente mostrado que se tratava de um megalómano, egocêntrico, que não hesitou em converter-se ao Islão para se insidiar mais no Egipto, com o objectivo de, quiçá, tornar-se ele próprio uma espécie de faraó. Todavia, gostei de aprender mais sobre esse episódio da decifração dos hieróglifos, e de como tantos objectos acabaram expostos em França, e Inglaterra, pelos seus diversos museus. 


Título: O segredo de Champollion

Autor: Jean-Michel Riou

Editora: Asa

Nr de Páginas: 411

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Dica de Leitura - A Home For All Seasons

Dica de leitura de Miranda Mills

O que me atraiu neste livro foi a localização, ou o tema central, quer dizer, uma cottage parecia ser a personagem principal, e o local onde estava inserida, o campo inglês, para mim isto é irresistível. 

É uma espécie de diário, livro de apontamentos, de investigação, que começa quando Gavin Plumley, um declarado citadino, decide mudar-se para o campo, com o seu marido, Alaistair, por sua vez, um verdadeiro homem do campo. Na busca pela casa perfeita, encontram Steps House em Pembridge, num canto remoto de Inglaterra, pela qual se apaixonam imediatamente, e assim a adquirem. 

Ao fazer o seguro para Steps House são confrontados com a necessidade de saberem a idade da casa, inicialmente do Séc.XVIII ( porém dando sinais de mais antiguidade), e começa assim uma investigação que vai levar o autor através da História da casa, de Pembridge, da Inglaterra e até um pouco da Europa. 

Pembridge é uma aldeia antiga, que já na Idade Média tem registos, da actividade agrícola e pastoral, que está na base do seu enriquecimento mas que também sofreu grandes vicissitudes. 

Interessaram-me imenso certas curiosidades, que ainda actualmente impactam, como por exemplo, a referência ao azevinho, abundante na aldeia, e que hoje em dia é muito mais abundante do que na época, ao contrário daquilo que nos dizem! Aliás, menciona ainda Plínio, o Velho, romano, nascido no ano 23, que escreveu "o azevinho é raro, e quando encontrado, recolhido com toda a cerimónia".

O azevinho era tido como protector contra os maus espíritos, talismã de sorte e até cura para a melancolia. Foi rapidamente capturado pela religião, usando-o decorativamente no Natal, apesar de ainda reter a sua primeva associação à fertilidade, com a viscosidade das bagas comparada ao sémen. 

Gavin Plumley explica que este arbusto necessita de luz e com a deflorestação das florestas, os espaços por onde a luz entra é muito maior. Pode até ser, mas eu também penso que o facto das pessoas o terem nos seus jardins justifica em muito o azevinho ser tão comum.

Steps House é vizinha imediata do cemitério, e da igreja local, onde Gavin também procura informação; propósito do despojamento das igrejas protestantes, elas não eram assim originalmente, eram como as católicas ( pois eram católicas), porém, os reis que fundaram e cimentaram o Protestantismo, entenderam, sobretudo Eduardo, nas Reformas no séc.XVI,  que as pessoas não deveriam adorar imagens e por isso foram recolhidas, para sua alteza real; estes bens das igrejas representava uma riqueza colossal, com a arte, os objectos de ouro e prata, que assim foram legalmente confiscados, perante a indignação do povo, que não teve outra opção senão render-se. As mudanças também proibiram as procissões, e o toque dos sinos, para as missas; posso, facilmente, imaginar quanto tudo isto afectou a população, dado que as procissões tinham o objectivo de agradecer pelas colheitas e pedir abundância, para as seguintes. Por essa época, diversas actividades foram abolidas, como por exemplo a dança, que as entidades religiosas viam como pagãs, e que levavam a actos pecaminosos, sendo por isso os seus infractores castigados seriamente. Como não haveriam de ficar deprimidos?!

Outra coisa que sempre me fascinou imenso, e desconhecia o porquê, é a popularidade dos Pubs em Inglaterra. Ainda, actualmente, ir ao Pub é uma prática comum, fortemente enraizada, e na sua origem está o frio das casas! Apesar de todas as casas terem lareira, eram frias, a do pub estava permanentemente acesa, tornando a divisão quente e aconchegante. Além disso, era também onde as pessoas podiam socializar, e assim espantar e melancolia do Inverno ( a depressão nessa estação existiu sempre), sendo que beber um fino era apenas o pretexto para tudo isto!

Na Idade Média, Pembridge estava muito isolada, para mais a Lei inglesa proibia que as pessoas trespassassem campos e florestas pertencentes ao Estado, o que tornava as viagens para levar o gado ao mercado londrino, coisa de meses, e isolava a localidade, obrigando-os a comercializar entre si. Recentemente, aconteceu uma espécie de regresso ao passado. Como o casal já passou o "confinamento" de 2020 na aldeia, perceberam ainda mais então a importância de comprar localmente, e apoiar os produtores locais. Isso para mim já está mais do que assente, porém gostaria muito que todos tivessem tido essa descoberta, e mudassem de atitude. Gostei desse alerta. 

A propósito das "alterações climáticas", o autor refere a mini-idade de gelo que assolou a Europa no séc.XVI, que provocou escassez de bens alimentares, e consequentemente mortes em grande número, referindo que animais congelaram repentinamente, nas posições em que se encontravam. Dizem as notícias que algo semelhante se prevê em 2030, eu penso que sem alarme aguardemos porque o futuro é sempre incerto, e contudo, estas coisas já aconteceram antes, sem industrialização, nem aviação. São ciclos naturais.  

Recorrendo aos arquivos religiosos e civis, às canções populares, poesia e arte, referindo sobretudo Bruegel, cujos quadros detalhavam minuciosamente as actividades dos camponeses, providenciando assim valiosa informação sobre a vida e estações no séc.XVI, o autor constrói com esses fragmentos, uma manta de retalhos encantadora e informativa sobre uma era passada, que me proporcionou grande prazer ao lê-la, levando-me a reflectir também sobre a actualidade. 

Por tudo isto, e muito mais, é uma leitura que recomendo, infelizmente, não há versão traduzida, mais uma vez. Em inglês compro na Blackwells, cujos preços já incluem imposto da alfandega, e assim não há retenções nem más surpresas. 


Título: A Home For All Seasons

Autor: Gavin Plumley

Editora: Atlantic Books, London

Nr de Págs:309

   

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Dica de Leitura - Christmas at Fairacre



Em Dezembro pareceu-me indicado ler um livro cuja temática fosse o Natal, para me ajudar a entrar no espírito da época. Claro que o retratado pouco tem a ver com a nossa realidade, passa-se nos anos 70, em Inglaterra, Natal na estação mais rigorosa, com neve e grandes tempestades, e as formas de o celebrarem também divergem da nossa, mas eu aprecio muito estes modos anglo-saxónicos, e consegui visualizar tudo perfeitamente, não apenas devido à narrativa tão descritiva como também aos encantadores desenhos, que a preto e branco ilustraram, perfeitamente, as histórias. 

Miss Read é o pseudónimo de Dora Saint, nascida em 1913 em Londres, que foi uma autora bestseller. Os seus contos retratavam o mundo rural como um lugar seguro e sadio, sendo uma extensão da sua própria vida, enquanto professora no campo. Com um enorme talento para notar  as maravilhas da vida na aldeia, narra-as de forma simples mas imensamente significativa; publicou as suas histórias durante décadas, encantando diversas gerações. 

Os seus livros foram traduzidos para diversas línguas, infelizmente não para Português. Mais outra falha com a qual não me conformo, porque adorei esta leitura! A apologia da vida rural, a valorização das pequenas coisas, a alegria que tudo isso proporciona é-me tremendamente cara. 

"Christmas at Fairacre" está composto por 3 histórias independentes, todas elas passadas em Fairacre, terra ficcional; na primeira, uma viúva solitária arrenda um anexo a uma jovem solteira, a quem precisamente no Natal lhe é solicitada ajuda urgente em casa do irmão, à qual ela acede; o que aí vive irá permitir-lhe descobrir uma mais justa faceta da cunhada, por quem não tinha grande apreço, e a reaproximação ao irmão, permitindo-lhe compreender as alegrias da vida familiar. 

A segunda, muito pequena, remete para uma cena passada na Escola, com Miss Reed, também durante o Natal, que retrata a magia da época em pouquíssimas palavras. 

A terceira história, a minha favorita, "The Christmas mouse", conta sobre uma família de 3 gerações de mulheres, a avó, Mrs Berry, a mãe, Mary, e as suas duas filhas, de 7 e 5 anos, na véspera e dia de Natal. Lá fora está uma enorme tempestade, mas ainda assim Mary sai com as filhas, apanhando a camioneta para Caxlon, para fazer as compras de Natal. Em casa, Mrs Berry, recorda-se dos eventos que antecederam as circunstâncias presentes, com alguma tristeza mas estoicamente. Quando a filha e netas regressam, encharcadas até aos ossos, tomam banho, jantam algo ligeiro e vão para a cama, e então começa a aventura nocturna com a entrada de um rato no quarto da velha senhora, que tem fobia a ratos, e a faz permanecer na sala, junto à lareira, tencionando aí dormir; precisamente por aí estar se apercebe da entrada de outro tipo de rato, na cozinha. Essa peripécia ficará só entre Mrs Berry e o dito "rato". E o leitor, claro. 

Com a descrição da celebração do Natal descobrimos quão singela era, fosse no que diz respeito a presentes, fosse à ementa. Os presentes eram colocados nas fronhas das almofadas, penduradas ao fundo das camas das crianças, e incluíam tangerinas, nozes, caramelos, lenços com a inicial bordada, e com sorte uma boneca ou um conjunto de chá em miniatura. O jantar compunha-se pelo peru assado, e bolo de Natal, e ao chá, havia bolo de Madeira, sendo já este uma espécie de jantar. Parco para o gosto português, mas para mim faz todo, e cada vez mais, sentido. 

A decoração de Natal da casa também é descrita, guirlandas por cima da lareira, com castiçais que se acendem no dia de Natal, e a árvore, que de tão pequena, ficava pousada em cima de uma mesa. Isto fez-me lembrar a história real que ouvi de uma mãe, ao lembrar-se da vergonha da filha devido ao tamanho da árvore de Natal que tinham em casa, um tamanho normal, mas segundo ela, deveria chegar ao tecto; influencias dos filmes da televisão, que levam, frequentemente, a exageros e insatisfações. 

Esta leitura fez-me reflectir sobre a simplicidade dos Natais de outrora, que entusiasmavam mais do que os actuais com os seus exageros em tudo, em que cada ano se espera mais e melhor, e mais caro! 

Christmas at Fairacre relembra aos adultos que grande parte da magia de Natal nos é proporcionada pelas crianças, aquelas que fomos e aquelas que temos agora presentes, filhos e netos, é nos olhos deles que vemos reflectida a alegria e entusiasmo desta época. É por eles, que muitos de nós, continuam a viver o Natal. 


Título: Christmas at Fairacre

Autora: Miss Reed

Editora: OrionBooks UK

Nr de Págs: 263


Informação sobre a autora aqui e aqui


terça-feira, 26 de março de 2024

Dica de Leitura - Solstício de Inverno

 

Via

Já apresentei Rosamunde Pilcher na resenha do livro "Os Apanhadores de Conchas", pelo que aqui se torna desnecessário, e como adorei esse primeiro livro, desta autora, comprei Solstício de Inverno do qual também gostei imenso. 

Há já algum tempo que atravesso uma fase anglófila, e então quando o cenário é rural, as casas, jardins e objectos que se tornaram para mim de um interesse e beleza difíceis de explicar, tudo se conjuga para que se me torne irresistível. Gosto de reconhecer as menções àquilo que faz o Reino Unido único e encantador, como o Ága, as louças da Cornualha, os chás reconfortantes a toda a hora! Uma série de palavras que não conheço outros que as digam, como eu, como anoraque! Em suma, identifico-me imenso com as descrições e narrativa, de forma que foi uma leitura deliciosa, algo especial.

Mas vamos ao enredo. A excêntrica Elfrida mudara-se, com o seu cão, Horace, de Londres para uma casinha no campo, fazendo amizades na aldeia, particularmente com os Blundell, de quem se torna íntima. Porém, acontece uma tragédia que faz com que Elfrida se mude temporariamente para a Escócia, habitando uma casa antiga e enorme, que acaba por alojar alguns familiares e amigos, algo perdidos na vida. 

Sinceramente, não esperava que Elfrida me surpreendesse, devido à sua idade, não quero dizer a que respeito, para não estragar a leitura, e por isso não me identifiquei com ela, nem aliás com nenhuma das personagens, sendo todavia, todas encantadoras e por vezes, fascinantes.  

Gosto da forma como a história de cada uma das personagens é contada, por capítulos. De como se cruzam e certa altura da narrativa. E de como a falta de esperança é superada para cada um, cada problema, trazendo um novo fôlego, perante cada desafio. O livro fala sobre a busca pelo amor, as dores da perda, e a alegria de o encontrar ou reencontrar. Recomendo, portanto, a leitura deste livro. 


Título:  Solstício de Inverno

Autora: Rosamunde Pilcher

Editora: Circulo de Leitores

Nr de Págs: 508

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Dica de Leitura - A Aldeia de Stepantchikovo e os seus habitantes

Via
Regressei aos livros da minha adolescência com este de Fiódor Dostoiévski, que aliás nunca tinha lido, e é considerado uma obra-prima do cómico dostoievskiano.

Fiódor Dostoiévski nasceu em 1821 em Moscovo, dentro de uma família nobre ortodoxa. Trabalhou como engenheiro, e em simultâneo traduzia livros, mas foi com a publicação de Gente Pobre, nos meados dos anos 40 que entrou para o circulo literário de Moscovo. Pertenceu a um grupo que discutia livros banidos, cuja consequência foi a pena de morte, comutada no último momento, mas teve que cumprir 4 anos de pena de prisão na Sibéria, mais 6 anos de serviço militar obrigatório no exílio. 
Trabalhou nos anos seguintes como jornalista e escritor; produziu obra considerável, e tornou-se o mais lido e reputado autor russo, os seus livros mais famosos são "Crime e Castigo", "O Idiota" e os Irmãos Karamazov", que foram diversas vezes adaptados ao cinema e televisão. 
A sua temática debruçava-se sobre a condição humana, retratando as suas personagens de forma sensível e dramática. 

Relativamente a este, Serguei Aleksandrovitch recebe do seu tio e protector, o coronel Egor Iliitch Rosstaniov, uma inusitada carta a convocá-lo, com urgência, para casa, a fim de casar com a preceptora dos seus filhos. Conhecendo o carácter afável e generosos do tio, Serioja apressa-se a comparecer, para mais sabendo de antemão que na propriedade do tio algo de muito estranho se passa, já lhe tinham chegado rumores sobre um dos comensais, Fomá Opísskin, cujo comportamento tinha dado azo a muitas conversas e espantos. 
A propriedade do tio, localizada na aldeia de Stepantchikovo, alberga uma série de parentela, a começar pela própria mãe do tio, viúva e primeira admiradora de Fomá, que sendo hóspedes eternos do coronel, e por ele tratados com estima e magnanimidade, lhe retribuem com atrevimento e cinismo, de forma generalizada, sobretudo por Fomá, considerado uma espécie de iluminado, à cabeça do grupelho. 
Serioja tenciona inteirar-se do que se passa e pôr os pontos nos ii's, estabelecendo a ordem e respeito, pelo seu querido tio. Porém, desde o primeiro momento, e perante as sucessivas cenas tragico-cómicas, mostra-se apenas um mero espectador apalermado, indignado mas apenas interiormente. 
Esta parte para mim, enquanto leitora, foi imensamente enervante, estava constantemente à espera que Serguei avançasse e virasse o jogo. Mas afinal era tão palerma como todos os outros, pensava eu frustrada. 
A acção lá se foi desenrolando, de falta de respeito em falta de respeito, com os comportamentos mais disparatados e diálogos enviesados, suponho que fosse essa a parte cómica, mas nunca me fez rir, confesso. Enervava-me antes. Deve ser o humor de outra era, e a propósito do tempo, um tempo não muito distante, em que os senhores da nobreza ainda possuíam servos, os tais servos da gleba, brancos, na Europa! Nesse aspecto, uma narrativa muito instrutiva. 
Por fim, o desenlace feliz, e não seria de esperar outra coisa, quando o género se define como comédia!
Obviamente que recomendo a leitura. Pode não fazer rir, mas é pedagógico, e mexe connosco. 

 
Título: A Aldeia de Stepantchikovo e os seus habitantes
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora: Editorial presença
Nr de págs:212 

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Dica de Leitura - Lídia



Katherine Paterson é uma autora americana, mais conhecida pelas obras infantis, nascida na China em 1932; foi distinguida com diversos e prestigiados prémios, tenho inclusivamente um dos seus livros sido adaptado ao cinema, "Ponte para Terabita", aliás um filme muito bonito, sobre a imaginação e amizade, que aconselho. Ela acredita que temas de adultos devem ser apresentados às crianças, por exemplo, neste filme, a morte. 

Esta história passa-se em Vermont nos E.U. em 1843. O pai de Lídia tinha partido, em busca de sustento para a família, deixando a mulher com os quatro filhos; Lídia é a mais velha, e com apenas 13 anos já substituí a mãe, em praticamente tudo. Porém, após um episódio com um urso, a progenitora decide mudar-se para junto da irmã e cunhado, o que Lídia rejeita, e se propõe a ficar com o irmão, Charlie, de 11 anos, a tomar conta da propriedade. Aguentam à base de coelhos bravos e sopa de casca de árvore, e sentem-se até animados por estarem a conseguir manter tudo como antes, entretanto, chega uma carta da mãe, avisando-os de que alugara a quintinha, para pagar dividas, e enviando um e outro para destino diferentes.

Após alguns acontecimentos, Lídia acaba por mudar-se para Lowell, Massachussets, pretendendo trabalhar como empregada fabril, o que consegue. É uma trabalhadora excelente, tem como objectivo economizar dinheiro para pagar as dívidas e reaver a quinta, para onde pretende voltar com a família, por isso se revela uma operaria competente e produtiva. Fica hospedada numa casa que aloja somente mulheres que também trabalham nas fábricas, e aí faz amizades que a iniciam no amor aos livros. 

É impossível não se sentir ternura por uma miúda de 13 anos que já carrega a família às costas. Que sonha com o regresso do pai desaparecido, e a reunificação da família. Que se esforça para além do humanamente suportável, sendo apenas uma criança. Que sonha com o seu pedaço no mundo. Lídia possui os valores certos, sem nunca ninguém lhe ter ensinado, o amor à natureza e à liberdade guiam-na na superação de si mesma. Não se contenta, avança e progride, passo a passo. 

É uma narrativa muito fácil de ler, aconselho para todas as gerações, sobretudo para as mais jovens, para que aprendam como viviam e trabalhavam as pessoas no Séc.XIX. Como era o ambiente nas fábricas, e de como as pessoas podiam chegar ao ponto de trabalhar por um prato de comida. 

Foi um daqueles livros que comprei no Stuff Out, e creio que não será fácil encontrá-lo publicado, pelo que aconselho a procura em Bibliotecas, alfarrabistas, e negócios em segunda mão. Relembrem as minhas propostas aqui.


Título: Lídia

Autora: Katherine Paterson

Editora: Ambar

Nr de págs: 218

quinta-feira, 27 de abril de 2023

Onde comprar livros a bom preço?

 Agora que as lojas de roupa vintage ou usada estão na moda, e promovidas pela nova ética ecológica (o que eu acho muito bem!), poderia acontecer o mesmo com os negócios de livros em segunda mão. Afinal, o papel nasce nas árvores mas é finito! E as vantagens são igualmente irresistíveis. 

Primeiro, os preços são muito mais acessíveis. 

Segundo, encontramos nessas lojas livros que já não estão a ser editados, ou seja, raridades, pérolas inestimáveis!

Terceiro, estamos a contribuir para o sustento de pequenos negócios independentes. 

Quarto, se o livro não agradar o prejuízo do engano é incomparavelmente menor. 

Quinto, a existência destas lojas também está facilitada pela internet, têm paginas próprias, conta nas redes sociais, e também estão presentes em lojas físicas e feiras. 

Sou cliente dos seguintes, e portanto atesto a honestidade e recomendo:

Bibliofeira - O primeiro site onde procuro um livro específico. 

Stuff Out - Este é um site de leilões, que começa com preços muito baixos e onde tenho feitos excelentes compras. Há imensos outros na mesma plataforma. 

Eu Ando a Ler, livraria alfarrabista - Um atendimento personalizado e muito simpático. 

Espero que experimentem, e façam bons negócios!

Boas leituras!  

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Dica de Leitura: A Magnífica Sophy

Via

A inglesa Georgette Heyer (1902-1974) ficou conhecida como grande precursora do romance histórico do período da regência. Começou a escrever em 1921, uma história que inventou para um irmão doente, que transformou em romance, e se tornou num sucesso enorme. Georgette Heyer concluiu que a notoriedade não era necessária e decidiu nunca dar uma entrevista ao longo da sua carreira. Fascinante, não é? 

Este livro confirma que Jane Austen é a sua inspiração, embora me pareça que num estilo mais rebuscado, menos contido. 

Sophy é uma jovem aristocrata de 20 anos, que acaba de chegar a casa da tia, Lady Ombersly, em Londres, vinda de Portugal, onde vivera com o pai, enquanto este ia em negócios ao Brasil, por um período curto de tempo. Os cinco primos,uns mais jovens, outros da idade de Sophi, outros mais velhos, reagem com entusiasmo à chegada dela, excepto Charles, o mais velho, que assumira a séria responsabilidade da gestão da família, após o endividamento irresponsável do pai, e que mostra em compensação,um comportamento irrepreensível. 

A personalidade algo exótica da prima choca com as regras estabelecidas da família e da sociedade, e o seu carácter um pouco excêntrico leva-a consecutivamente a ter atitudes desafiantes, sobretudo para uma mulher, da época. Contudo, Sophi tinha bom-coração e o bem-estar de todos era o motor que fazia engendrar os mais elaborados planos, visando solucionar os problemas dos diversos parentes.

Mais do que mal-entendidos, a trama urde-se com base em entendidos pré-estabelecidos por Sophy,em esquemas estratégicos que exasperam quem nada sabe deles, e porém neles está envolvido. 

A protagonista é, todavia, senhora de diversos talentos, corajosa, empreendedora, astuciosa, divertida e dona de bom-senso, como ela própria o afirma, embora a mim isso me pareça muito discutível. 

A narrativa versa sobre diferentes histórias de amor, que decorrem com oposições e obstáculos diversos, muito ao estilo da época, para terminar em finais felizes, como convém a este tipo de leitura, que é leve, porém revelando uma escrita cuidada e assertividade histórica, pela qual, aliás, a autora se tornou também conhecida.


Título: A magnífica Sophy

Autora: Georgette Heyer

Editora: Asa

Nr de pags: 363 

terça-feira, 28 de março de 2023

Dica de Leitura: Elizabeth and her German Garden

Via


Dado que tenciono ler outro livro desta autora vou dedicar-lhe, desta vez, uma apresentação mais extensiva, que pelo menos contextualize este livro. Para a biografia completa, ler aqui.

Elizabeth von Arnim nasceu na Austrália, no seio de uma família rica; aos 3 anos os pais decidem mudar-se para Inglaterra, o pai era inglês, deslocando-se pela Europa, e fixando mesmo residência na Suiça. A dada altura voltaram para Inglaterra, onde Elizabeth, inteligente e musicalmente dotada, estudou no Royal College of Music, Órgão. Aos 20 anos, os pais organizaram um passeio pela Europa para lhe encontrar noivo; em Roma conheceu o recém-viúvo Raff Henning Von Arnim Schlagenthin, membro da aristocracia prussiana. Ele ficou cativado pela inteligência, vivacidade e talento de Elizabeth, pelo que 2 anos mais tarde casavam em Londres. Moraram inicialmente em Berlim, e do casamento nasceram rápida e sucessivamente 3 meninas. Foi numa viagem ao campo, pelas propriedades do marido que Elizabeth descobriu e se apaixonou pela casa de Nassenheide, na Primavera de 1896, convencendo-o a mudar a família para aí. 

Este livro resulta de uma espécie de diário que Elizabeth inicia na nova residencia, a propósito do jardim, que descurado durante anos se tornara uma selva, e que a nova moradora tenciona recuperar. Não se espera certamente que uma senhora, aristocrata, se dedique a tal tarefa na primeira pessoa, nem sequer que lhe devote grande importância, mas Elizabeth não consegue ficar longe dele. É o seu sítio preferido para ler, é aí que descobre a tranquilidade, onde é mais feliz. 
De jardinagem não percebe, mas instruí-se com os livros, e se no início era o jardineiro quem decidia, a senhora da casa foi descobrindo a sua voz. Para Elizabeth o jardim tornou-se uma espécie de laboratório de experiências, dedicando-lhe tempo e dinheiro próprio, para perplexidade do marido, que esperaria que o fizesse antes com vestidos. Mas o livro não versa apenas sobre jardinagem; o relato ganha um fôlego extra a propósito de duas visitas, que chegam para o Natal, Irais, amiga da anfitriã, e conhecida cantora, e Minora, uma desconhecida e jovem estudante inglesa, aceite como especial favor a um amigo.
 
A estadia das duas visitas prolonga-se por semanas, dando azo a diversos episódios em que os costumes, leis, formas de pensar, estar e fazer são revelados, para espanto de Minora e gáudio das outras duas senhoras. A diferença de culturas não se esbate para uma leitora do século XX ou XXI, como eu, também perplexa com a comparação das mulheres a crianças e imbecis, perante a Lei alemã, no final do séc.XIX. Ou pelo inusitado costume da lavagem das roupas apenas 4 vezes ao ano, sendo a roupa suja acumulada, e a substituição dessa pela limpa significar a abundância e riqueza da casa. 
Há confrontos de ideias entre elas, mas também entre elas e ele, o Man of Wrath, como a esposa o apelida. Os debates são muito interessantes e estimulantes. E também cómicos por vezes, aliás o sentido de humor de Elizabeth repercute por toda a narrativa. 

O livro foi publicado em 1898 e imediatamente se tornou um sucesso, providenciando a Elizabeth um rendimento considerável. 

Infelizmente, este livro não está traduzido, pelo que o li em inglês, e confesso que embora o meu domínio da língua seja bastante bom, não foram poucas as vezes que consultei o dicionário. Creio que o vocabulário reflecte a classe, com palavras distintas, e também época, com palavras caídas em desuso. Mas a leitura valeu tanto a pena!
Identifiquei-me com a autora relativamente ao jardim, e ao que sente por ele: What a happy woman I am living in a garden, with books, babies, birds, and flowers, and plenty of leisure to enjoy them!
Compreendi-a diversas vezes, como sobre a ânsia pela solidão. Mas também sobre muitas das suas reflexões e humor. Que mulher tão extraordinária! Tão profunda e multifacetada. Foi certamente alguém que se destacou numa sociedade tão regrada e convencional, tal como uma flor espontânea e colorida que surge num jardim rigorosamente desenhado. Espero que a metáfora lhe faça jus. 

É lamentável que actualmente as editoras não invistam nestas obras, antes se dedicando a estragar papel com outras que em nada contribuem para a cultura. 
Para mim, este livro entra para a minha Lista dos preferidos, aliás, estou a lê-lo pela segunda vez, entre as outras leituras que entretanto faço. 

Título: Elizabeth and her german Garden
Autora: Elizabeth Von Arnim
Editora: Penguin English Library
Nr de págs: 104 


quarta-feira, 8 de março de 2023

Dica de Leitura: O silêncio das mulheres

Adorei ler a Ilíada na Faculdade, portanto toda a literatura que me surge tendo-a como inspiração me atraí, e embora se possa pensar que é mais do mesmo, não é, sendo que este livro invoca a memória feminina na guerra de Tróia, pelo que nisso é mesmo muito diferente. 

Pat Barker é uma autora inglesa, de ficção, diversas vezes premiada; nasceu em 1943, de mãe solteira, numa família da classe trabalhadora, que passou por imensas dificuldades. Estudou História Internacional, e a sua primeira obra, Union Street, foi publicada em 1982, e adaptada ao cinema, em Hollywood. A lista dos livros publicados é longa, este é de 2018, e ganhou o Women's Prize for Ficction. 

O ditado "O silencio assenta bem às mulheres" indica desde logo que o sexo feminino não tem palavra a dizer nesta história, contudo, as mulheres vivem-na, sentem-na, pensam-na.
 
A narradora é Briseida, a jovem rainha do Lirnesso, casada com Minos, que após a vitória dos troianos é oferecida pelos soldados a Aquiles, como troféu, sendo habitualmente esse o destino das aristocratas, acabarem, como por sorte, amantes dos altos escalões. Arrasada pela morte da sua família e destruição do seu reino, Briseida tem que servir o seu novo senhor, sendo esse o responsável por todo o seu infortúnio. Enquanto se adapta ao acampamento, Briseida vai tomando conhecimento com outras mulheres, também ex-senhoras de diversas origens, agora escravas dos seus captores, e dos próprios troianos, entre os quais o hermético Aquiles. 
Briseida junta-e às mulheres nas actividades do acampamento, servindo à mesa, na tenda-hospital, nos teares, que nunca param, e obviamente, na cama de Aquiles. A ambiguidade da situação é cruel, os seus captores podem ser também os seus salvadores, e frequentemente os pais dos seus filhos.
O retrato de Aquiles, meio-homem meio-Deus pela sua origem divina, não lhe sai beneficiado, e ainda que Heitor seja apenas aludido, permanece o meu herói favorito da História de Tróia, cuja morte me custa sempre a aceitar. Em todas as narrativas.  

Pela voz de Briseida, ficamos a conhecer a vida militar, religiosa, e amorosa das personagens cantadas por Homero. A crueldade é extensiva a todas as áreas da vida, cujo valor se localiza muito distante daquele que lhe atribuímos actualmente. 

Gostei do livro, aporta outra perspectiva, oferecendo a versão dos mais fracos na guerra, embora no caso, das mais fortes entre as mais fracas. É porém uma narrativa muito actual, as mulheres e crianças continuam a ser as vítimas de guerras que não começaram nem queriam. 


Título: O silêncio das mulheres
Autora: Pat Barker
Editora: Quetzal, serpente emplumada
nr de págs: 379

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Dica de Leitura: Apenas Miúdos


A minha filha tinha o livro na estante dela, e depois do último clássico apeteceu-me algo mais contemporâneo. É a biografia da compositora e cantora norte-americana Patti Smith, cuja juventude passou em Nova York, para onde se mudara, seguindo o sonho de vingar nas Artes. 

O início habitual, pobreza, fome, falta de abrigo, empregos precários e mal pagos, difícil pagar contas e sobreviver, intercalando com o desenho e a escrita, encontros com pessoas que se tornam importantes na sua história, alusão a outras que fazem parte da história da música, da fotografia, museologia, jornalismo, literatura, enfim, das Artes. As mortes emblemáticas de cantores, ainda jovens, devido ao consumo intenso de ácidos e outras drogas, tão em voga na época, alguns acontecimentos de impacto nacional, e até internacional. 

Para quem viveu a juventude na década de 60 e 70, certamente encontrará no livro referencias que lhe façam sentido, sobretudo o público norte-americano, daí até compreendo que seja um best-seller do New Yor Times, porém para mim, portuguesa, cuja juventude foi passada nos anos 80 e 90, quase nada me diz relativamente ao cenário musical e menos me diz, em termos de nostalgia. 

Patti Smith teve, evidentemente, uma vida interessante, e sendo poetisa esperava dela algo mais profundo e pessoal, não um desfilar de nomes de pessoas, sítios, datas e acontecimentos, como se transcritos de uma agenda. Falta-lhe emoção, é uma escrita muito seca. Já nem menciono momentos chave que foram minimizados (para não dizer suprimidos), e que não compreendo, porém sobre aquilo que escreveu, no seu aspecto mais humano, foi parca em sentimentos, ou em sinceridade, mas se foi este o caso, nem deveria ter-se aventurado nesta escrita. Por exemplo, não acredito que tenha sido tão estóica como pretende, perante a traição consecutiva do namorado, pior ainda com o mesmo sexo. Afinal, tratava-se do amor da vida dela, digo eu, porque ela não o assume, não tão claramente; somente nas poucas páginas finais transparece o amor que tinha a Richard, de uma forma quase avassaladora, porque antes foi extremamente contida.

No fim, tive curiosidade em saber porque a Letícia o tinha comprado, ela contou-me que tinha sido dica de uma YT sobre literatura que segue, e cujas dicas antes lhe tinham agradado. Porém, sentia-se como eu no final, esperava mais, a narrativa não a tinha convencido, faltava-lhe sentimento. 

É portanto um livro que aconselho com reservas, para os admiradores da Patti Smith, para os estudiosos da Música ou História dos anos 60 e 70, para os apreciadores de biografias, talvez.

Título: Apenas Miúdos

Autora: Patti Smith

Editora: Quetzal Editores

Nr de Págs: 344

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Dica de Leitura: A Herança de Eszter

 

Via

Comecei o ano a ler "A herança de Eszter", do húngaro Nobel da Literatura Sandor Márai, com aquela expectativa boa, proporcionada pelo "As velas ardem até ao fim", que adorei, e embora este não atinja o nível do primeiro, gostei imenso. 

Eszter é a protagonista e narradora da história que se desenvolve ao seu redor; solteira, vive na casa da família, com uma parente afastada, de forma tranquila, quase dormente, porém um dia recebe um telegrama de Lajos, o único homem que amou, avisando-a que a vai visitar, com a família. Eszter, que nunca esqueceu Lajos, teve tempo para reviver o passado, compreender e criar expectativas, para esse confronto. Havia contas a ajustar, portanto adivinhava-se um confronto, antes do encontro. Do seu lado surgiram o irmão, um fiel amigo e até um velho amigo de família, também convocados. Que quererá Lajos desta vez? É a pergunta que todos fazem, e contudo, ninguém espera algo de bom, excepto Eszter, que ambivalente, ora teme ora anseia. 

Sandor Marai consegue jogar com a dose certa de informação e suspense, de forma a que a leitura seja fluída mas nunca totalmente saciada. Uma escrita impecável, a construção de personagens condensada e realista, apesar de criar em Lajos um desafio que custa a engolir mas por fim, justificado, verosímil, e isso é que é fascinante.

Uma leitura que obviamente recomendo. 

Título: A Herança de Eszter

Autor: Sandor Márai

Editora: D.Quixote

Nr de Págs:150 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

Dica de Leitura - " Noite sem lua"

Via

Este foi o último livro que li em 2022, e queria deixá-lo registado. 

John Steinbeck é um autor norte-americano, nascido em 1902 e vencedor do prémio Nobel da Literatura. Foi muito bem sucedido, e a sua actividade escrita prolífica. Vários dos seus livros foram adaptados ao cinema, eu vi pelo menos "A leste do Paraíso", e li "As vinhas da Ira" e "A pérola", que tenho, e ainda tenha sido há muitos, muitos anos, e não me recorde detalhadamente, sei que fiquei com boa impressão. Portanto, este "Noite sem lua" não me decepcionou, pelo contrário, foi muito melhor do que antecipei. 

A acção localiza-se algures perto de Inglaterra, num país/ilha que não é nomeado, durante uma guerra que também não é designada mas leva a crer que seja a II Mundial, e que é invadido sem resistência, devido ao diminuto e despreparado exército,em poucas horas. O local tem interesse devido à mina de carvão, que o inimigo pretende, e desde logo o diálogo entre o Presidente do país e o coronel inimigo espanta pela franqueza e humanidade. Um, enquanto soldado de carreira cumpre ordens sem questionar, o outro, eleito pelo povo não esquece que deve fazer o que este deseja, e que é somente um mero representante. Este modelo de politico que parece deixar o coronel perplexo, tal como me deixou a mim, é o exemplo perfeito do que deveria ser, mas que desapareceu da nossa sociedade, e se tornou utópico. 

O retrato dos soldados inimigos e da população ocupada é visto do mesmo ângulo, o humano. Por detrás da imagem dos soldados há homens,velhos,jovens, rapazes que querem paz, querem voltar a casa, às famílias, e desesperam pela falta das emoções que os fazem felizes, aconchegados e queridos. No fim de contas, almejam o mesmo que os civis privados de uma série de coisas decorrentes da guerra. 

Numa época de tanta guerra no mundo, e mesmo aqui, na Europa, ler este livro lembra-nos de que as pessoas, o que querem realmente, é viver em paz. Em segurança, com as suas famílias. E que se os políticos fossem genuínos representantes dos seus povos jamais se envolveriam em guerras; é deste modo, um romance universal, e por isso o escolho como a melhor leitura de 2022. 


Título: Noite sem Lua

Autor: John Steinbeck

Editora: Ulisseia

Nr de Págs: 176

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Dica de leitura - Uma vida Inteira

Via
É considerado um romance brilhante, e foi um fenómeno de vendas nas livrarias alemãs. Já não recordo de onde me chegou a dica mas a apresentação da narrativa interessou-me. Assim que comecei a ler as primeiras páginas anotei mentalmente que devo prestar mais atenção à origem das minhas sugestões de leitura; tal como aconteceu antes com o som, são agora as palavras lidas que não estando em sintonia com a minha consciência se me tornam penosas e intoleráveis. Refiro-me particularmente à descrição da infância do protagonista; o mau-trato infantil, ainda que em ficção, é-me absolutamente insuportável. 

Portanto, esta é a história de Egger, um órfão recolhido por parentes relutantes, que desde cedo encontrou as amarguras e desgostos de um mundo rural, duro e impiedoso para com os frágeis e necessitados. Mas ele possui a resiliência das ervas daninhas, que teima em singrar nos climas mais hostis, e até disso faz gala. Tudo o que a primeira metade do século XX lhe proporciona ele aproveita, retirando-lhe o melhor de que é capaz, tornando-se um sobrevivente obstinado do principio ao fim da sua vida. 

Egger é uma personagem comovedora, seja pela solidão imposta e depois auto-infligida, seja pelas suas diversas facetas, por vezes inesperadas, como a romântica, revelam alguém de quem não se sabe o que esperar. Só ele é capaz de se ver na sua profundidade, e tem a coragem de o fazer. 

Título: Uma vida Inteira

Autor: Robert Seethaler

Nr de págs: 120

Editora: Porto Editora 

 

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Dica de Leitura - Só o Amor é real

Via

Já tinha lido 2 livros deste autor, portanto sabia de antemão o tipo de leitura que seria este, mas não resisti quando vi o livro tão baratinho na Feira de Velharias, para mais quase novo. 

O Dr. Brian Weiss é um psiquiatra americano, conhecido e bem conceituado, e às páginas tantas deparou-se com uma paciente que lhe pôs o seu mundo de pernas para o ar. Ao fazer-lhe um tratamento de hipnose a paciente recuou não para a infância, ou qualquer momento da vida que lhe tinha causado o trauma, mas para séculos atrás. Após a perplexidade, prosseguiu o tratamento, e investigação, que lhe permitiu comprovar a veracidade dos factos relatos em hipnose. Como conclusão, o Dr.Brian Weiss convenceu-se de que muitas patologias e traumas são causados em vidas passadas, e aí devem ser tratadas. Escreveu um livro a relatar todo o processo pioneiro dessa paciente, e publicou-o a suas expensas, com muito receio da reacção dos seus pares, que já antevia, não seria a melhor. E não foi, teve imensos problemas, porque estas questões ainda são vistas pelo núcleo duro da ciência como charlatanice, embora cada vez menos, pelo menos actualmente.

O facto é que muitos pacientes se seguiram, muitos casos foram tratados desta forma, com registos e investigação, e sobretudo com resultados bem sucedidos. O livro também se revelou um sucesso, e não faltaram editoras interessadas em publicá-lo posteriormente. 

Este livro relata diversos casos de pacientes do Dr. Brian Weiss, dentre os quais dois se destacam, que vão sendo relatados ao longo dos capítulos de forma intermitente, e cujo desfecho, para mim que já não sou novata neste tipo de leitura, foi bastante previsível, mas que comprova, mais uma vez, a teoria do psiquiatra: temos problemas, pendências, fobias, traumas que ficaram por resolver lá atrás, e que precisam de ser resgatados para serem tratados, e nos libertarmos deles para sermos mais saudáveis, mais tranquilos e felizes.  


Título: Só o Amor é Real

Autor: Brian Weiss

Editora: Pergaminho

Nr de págs: 232

segunda-feira, 27 de junho de 2022

Dica de leitura - Os Peixes Também Sabem Cantar

 

Via


Foi dica de leitura, e o primeiro livro que li sobre a Islândia, de um autor islandês que, inclusivamente, ganhou o Nobel da Literatura em 1955. Os nomes são difíceis de pronunciar, mas como gosto muito de línguas, diverti-me bastante a pronunciá-los em voz alta, tentando alcançar o sotaque islandês. Portanto, foi mais um bónus. 

Através da história de Álfgrímur, um jovem adoptado por um casal de velhotes incomum, que o cria desde bebé, e cuja infância simples pressagia um futuro vulgar, acompanhamos também a história do país e da capital, Reikjavick, no princípio do século XX. Por essa altura, a sociedade está em profunda mudança, de minúscula cidade piscatória medieval, em direcção à modernidade, quando mecaniza, finalmente, a indústria da pesca. 
Em paralelo, a vida de Álfgrímur prossegue, desenvolvendo-se em pequenos episódios entrelaçados com uma sucessão de personagens sui generis, dos quais se destaca o, internacionalmente famoso, cantor islandês Gardar Hólm, que terá impacto decisivo no futuro do protagonista. 

O que mais me impressionou nesta história, de real, foi o valor do conhecimento, e da sua cultura, que os islandeses possuíam apesar da pobreza, e dureza da vida. E de como tão rapidamente o país passou de uma nação pobre, a rica e moderna. Isto diz muito da mentalidade deste povo. 
Relativamente à história, a riqueza de todos os personagens é fascinante, reside neles uma doçura inesperada, considerando as suas vidas duras e rigorosas; e o enredo, apesar de linearmente simples, é afinal intrincado, e insuspeito, proporcionando ao leitor uma surpresa a cada esquina. 
É por tudo isto uma leitura que recomendo muito.

Título: Os Peixes Também sabem Cantar
Autor: Halldór Laxness
Editora: Cavalo de Ferro
Nr de págs: 308

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Dica de leitura: Terra Delas

 

Via...

A autora nasceu em 1860, nos E.U. , num meio pobre, tendo o pai abandonado muito cedo a família, situação pela qual a sua educação foi deficitária. Casou mas depressa ficou comprovado que não tinha vocação para a vida doméstica, resultando em colapso nervoso e divórcio. O marido voltou a casar, com uma amiga dela, e de imediato Charlotte Perkins enviou a filha, para ser educada por eles. Toda a história foi pública e muito comentada. 
Foi autora de novelas, poemas, e feminista, e mesmo considerada "reformista social". 
Creio que a sua vida pode muito bem explicar este livro; mais aqui

É a história de três jovens amigos que partem numa expedição a terras distantes, e acabam por voltar, em seguimento de lendas, que os nativos lhes contam, sobre um reino desconhecido e fechado, que pretendem descobrir. Efectivamente, conseguem encontrar esse país, que os deixa continuamente perplexos, e até desorientados, principalmente por ser constituído unicamente por mulheres, e depois por ser muito evoluído, o que na mentalidade dos homens em início do séc.XX é algo que não combina. E nem agora, suspeito eu. 
 
Sendo três jovens muito diferentes, a forma como interagem com a população feminina é díspar, e até controversa. As peripécias são inusitadas, cómicas, e por vezes dramáticas. 

Eu gostei, sobretudo, de ler sobre uma sociedade bem organizada e pacífica, onde o bem comum é objectivo primeiro, e que ainda assim a individualidade de cada pessoa é respeitada. A visão sobre a maternidade também me fascinou, a começar pela reprodução por partogênese, pelo papel da mãe, e pelo tipo de educação e tratamento dispensado às crianças. 

É um livro que fala sobre a amizade, o amor, o relacionamento entre homens e mulheres, e uma sociedade ideal.
 
Foi traduzido por Clara Pinto Correia, que achou por bem introduzir notas em rodapé, frequentemente denotando juízos de valor, que eu não apreciei, mas pode ser que quem goste dos seus livros, valorize isso também.

Gostei e recomendo. 

Título: Terra Delas
Autora: Charlotte Perkins Gilman
Editora: Sibila Publicações
Nr de pág.:233