segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Realidade dos Procedimentos Cirúrgicos - Relato Pessoal

Conforme vou somando mais anos à minha existência vou compreendendo, cada vez mais, que há muitas coisas na vida que só vamos descobrindo à medida que as vivemos. Estou agora a lembrar-me de questões relacionadas com a saúde; apesar dos médicos nos explicarem determinados procedimentos cirúrgicos, e responderem às questões e dúvidas, tenho constatado que há sempre uma área não mencionada, não sei se para não amedrontar, para não desanimar, ou porque ignorem, é que começo a entender que só sabemos realmente aquilo que vivenciamos, e ainda assim a subjetividade, de pessoa para pessoa, permite uma margem desconhecida. 

Ao longo dos anos tenho evitado partilhar aqui informação que considero muito pessoal, por uma questão de reserva; nunca quis ser aquele tipo de blogger que publica absolutamente tudo sobre a sua vida, e talvez, esse equilíbrio sobre o que partilhar, ou não, seja mais desafiante do que julguei. Em 2011 fiz uma cirurgia que tentei evitar por não querer absolutamente fazê-la, andei longos meses a considerá-la, e nunca a mencionei aqui, nem a ponderação, nem o durante, nem o após. Agora penso que a partilha desse processo poderia ter sido positivo para alguém, o que eu vivi e senti nunca me foi dito. E não foi uma descoberta propriamente positiva. Senti-me despreparada. 

Porém, também sei que há pessoas que preferem nem saber exactamente como se passam estas coisas, a ignorância para muitos é uma bênção, uma forma de se protegerem, se for o caso, aconselho a parar a leitura agora mesmo. 

Em 2011 eu já pensava que todos os órgãos que compõem o corpo humano são necessários, e devemos fazer o possível para os preservar em bom funcionamento, portanto, quando a minha Ginecologista me falou na histerectomia, entrei em pânico. O fibromioma que tinha no útero continuava a crescer, já tinha o tamanho de uma toranja, e eu estava  com anemia, pelo que me vi praticamente forçada à cirurgia. A minha médica, na época, era a responsável pela Ginecologia-obstetrícia na Clipóvoa, era uma profissional reconhecida, e eu confiava nela. Perante as minhas inquietações, disse-me: A Fernanda já não quer ter mais filhos, pois não? Então. Além disso já fez duas cesarianas, portanto esta cirurgia é muito semelhante. Aligeirou bastante a situação e eu acreditei. 

A operação correu bem, porém o pós-operatório abalou-me até ao âmago; para além da dor, eu sentia uma impressão terrível e física de vazio dentro da minha barriga, e se deitada na cama me virava para a esquerda ou direita sentia na minha barriga os órgãos a moverem-se nesse sentido, o que me causava uma impressão extremamente desagradável, virava-me então muito lentamente, e ainda assim sentia os órgãos a mudarem de sítio, a rearranjarem-se. Faziam barulho. O meu corpo teve que reajustar-se, havia um espaço vazio, e os órgãos restantes tiveram que se se adaptar. Explicou-me, logicamente, a minha médica mais adiante. 

Demorei cerca de um mês a recuperar "totalmente". Portanto, em nada semelhante a uma cesariana, excepto o corte no abdómen.

Actualmente, estou em período pós-operatório de um enxerto gengival, e aconteceu-me precisamente o que partilho acima, tem sido bastante mais difícil daquilo que me foi dito, e inclusivamente lido nas minhas pesquisas. Porém, por saber agora que as cirurgias nunca são tão simples como dizem os profissionais de saúde, já não estava tão iludida, aliás, precisei de um ano para me mentalizar e marcar este procedimento. Quando o meu dentista me falou de que a minha gengiva estava muito fina junto dos implantes, o que os fazia perigar, e precisava desta solução horrorizei-me. Apesar de na altura não ser evidente, para mim, ele viu-o claramente, e com o tempo comprovou-se, eu já estava a sentir uma ligeira dor nessa área. 

O pós-operatório é desafiante, comer só "papinhas" frias e mornas, com muito cuidado, a dor lancinante em certos jeitos que dou, apesar do cuidado, fazem-me temer as refeições. Dormir para o meu lado contrário preferido, falar devagar e pouco, e ter um grau de dor variável mas constante, que inclui o ouvido, a sensação permanente da goteira, não poder lavar os dentes, e o sabor desagradável e permanente na boca. Ter o rosto inchado e com hematoma, é uma aparência que não faz jus ao que não se vê, até parece muito menos difícil. 

Portanto, não tive alternativa, e tive que avançar; o facto do meu dentista ser altamente qualificado, há quem diga que um dos melhores do país, inspirou-me confiança, o que ajudou bastante. Agora, também é certo que a sensibilidade é diferente de pessoa para pessoa, e eu, está comprovado, não sou alguém que tenha grande tolerância à dor. O que por um lado também é bom, a minha experiencia não dita a de mais ninguém. Portanto, a minha partilha destina-se a focar um caso real, o meu, sem floreados nem facilidades, é a minha realidade, espero que isso contribua, de alguma forma, para uma noção mais realista ou possibilidade dela, a quem seja útil. Mas o que eu espero mesmo é que quem me lê não precise nunca de nenhuma cirurgia, e tenha uma saúde em todos os aspectos de ferro!